As plataformas alternativas de transporte param esta quarta-feira, entre as 16:00 e as 20:00. O horário coincide com o encerramento de mais um dia da Web Summit, a cimeira de tecnologia e empreendedorismo que decorre até esta quinta-feira, no Parque das Nações, em Lisboa. Um horário em que as viagens feitas pela Uber inflacionam, por causa da elevada procura.

Há relatos de viagens feitas, na segunda e terça-feira ao fim da tarde, no período horário em que as plataformas alternativas de transporte ameaçam parar hoje, entre o Parque das Nações o centro de Lisboa, cuja tarifa andou muito perto dos 100 euros.

O preço pago por Mariana Monteiro, na última segunda-feira, não foi tão elevado. Mas esteve muito acima do normalmente praticado. Mariana, que participou da abertura da Web Summit, pagou 28 euros, pelo percurso entre o Parque das Nações e Belém, num carro da Uber que partilhou com mais duas pessoas.

Saí do Altice Arena eram 19:55. Tentei logo apanhar um Uber, mas reparei que havia muita gente a tentar o mesmo. Ainda tentei apanhar um táxi, mas não havia. E o autocarro para Belém demorava muito tempo. A tarifa da Uber só para mim estava nos 35 euros. Decidi pedir um Uber partilhado”, conta Mariana Monteiro, em declarações à TVI.

O percurso de Mariana demorou mais de uma hora a ser feito: “Tive de parar duas vezes para deixar as outras pessoas com quem partilhei o carro”.

No final da viagem, a tarifa já tinha inflacionado. Dos 21 euros inicialmente previstos, passou para os 28 que Mariana pagou.

As outras pessoas pagaram mais ou menos o mesmo. Uma pagou 20 euros e a outra um pouco mais. O que significa que a viagem ficou em mais de 60 euros.

O caso de Mariana não é único, a avaliar pelas queixas nas redes sociais: 

A lei da oferta e da procura

João Pico, da Associação Nacional de Parceiros das Plataformas Alternativas de Transportes (ANPPAT), explica que é natural a inflação das viagens da Uber, já que a plataforma tem a chamada “tarifa dinâmica”, que funciona de acordo com a lei da oferta e da procura.

Imagine que ontem, à porta do Altice Arena, eu tinha 10 mil pedidos e só tinha a oferta de mil motoristas online. Como a tarifa é dinâmica e a procura é 10 vezes superior à oferta, é natural que o preço suba”, explica.

João Pico lembra que isto acontece agora com a Web Summit, mas também em alturas do ano de maior tráfego, “como é o caso do Natal”.

A tarifa da Uber é dinâmica e o alerta para o aumento de preços surge assim que se faz o pedido à plataforma (Foto: Reprodução)

Mas o responsável da ANPPAT sublinha que o cliente da Uber sabe sempre quanto vai pagar no início da viagem: “Quando se contrata um Uber já se sabe que a viagem vai ficar num determinado intervalo de valores. Esses valores já aparecem no smartphone do cliente, ainda antes de entrar no carro”.

O que fazer se o valor exceder o previsto

Há situações em que, no final da viagem o valor pode ser superior ao máximo previsto na aplicação no início do percurso. Isto acontece também porque a tarifa é dinâmica.

Vamos a um exemplo: imagine que pede um carro, agora no período da Web Summit, utilizando o serviço UberPOOL (uma opção que a plataforma criou para a cimeira do ano passado e que já utilizou em 2017, nos festivais de verão, e volta a utilizar nesta edição da Web Summit). O serviço permite a partilha de um carro por duas ou mais pessoas. No início da viagem, a estimativa é que ela lhe custe entre 20 e 27 euros. Acontece que, durante o percurso, teve de ir deixar os seus companheiros de viagem aos seus destinos, apanhou trânsito e o trajeto acabou por lhe custar 35 euros, porque entretanto a tarifa aumentou.

João Pico deixa um conselho a todos os utentes: “Peçam o ressarcimento junto da Uber! A viagem não pode custar mais do que o limite máximo inicialmente previsto e têm direito a reaver a diferença entre esse valor e o que pagaram”.

Ou seja, voltando ao exemplo anterior, o cliente pagaria os tais 35 euros ao motorista, mas teria direito a ser ressarcido de oito euros (a diferença entre o valor máximo inicialmente previsto e o que pagou).

Desde que passe do valor máximo, 90 por cento dos clientes são ressarcidos pela plataforma”, sublinha João Pico.

As razões da greve

A ANPPAT prevê uma “enorme adesão” à greve desta quarta-feira. “O feedbak que temos é que a grande maioria dos nossos parceiros vai ficar offline, entre as 16:00 e as 20:00. Muito mais de 50% irão parar, seguramente”, adivinha João Pico.

Os motoristas da Uber, da Cabify e da Chofer vão parar por causa da “perseguição” de que dizem estar a ser alvo por parte das autoridades.

Têm sido dezenas de multas! Dezenas! Agora, no período da Web Summit, muito mais do que o costume. Começou já no domingo. Ainda agora soube do reforço da operação junto ao aeroporto. E não me digam que não é perseguição. Quando uma patrulha me aborda e um dos agentes vai do outro lado do carro e questiona o cliente, ilegalmente, se aquele é um serviço Uber, isso é o quê, se não perseguição?”

Os motoristas das plataformas alternativas de transporte queixam-se de “falta de vontade política” para fazer aprovar na especialidade uma lei específica para o setor que “já existe desde maio”.

Esta quarta-feira, junto ao Parque das Nações, acreditam que a confusão será mais que muita. “Fizemos uma estimativa e calculamos que estamos a atingir um universo de 70% das viagens dos participantes da Web Summit. E se considerarmos os participantes estrangeiros, essa percentagem sobe para os 80%. São precisamente os estrangeiros quem mais vão sofrer com a paralisação”, adianta João Pico.

Organização da Web Summit aconselha utilização de transportes

A organização da cimeira de tecnologia e empreendedorismo Web Summit, aconselhou, esta quarta-feira, os participantes a utilizarem transportes públicos como o Metro para saírem do Parque das Nações devido à paralisação das plataformas de transporte privado.

Prevê-se hoje, entre as 16:00 e as 20:00, uma paralisação por parte dos motoristas da Uber. Isso talvez afete a disponibilidade de carros disponíveis no local [Parque das Nações]”, alerta a organização, em comunicado.

Pede, assim, que os participantes “verifiquem outras opções”, remetendo-os para as informações disponíveis no seu ‘site’, nas quais constam alternativas como Metro, o autocarro e o comboio.

A Web Summit decorre até quinta-feira, no Altice Arena (antigo Meo Arena) e na Feira Internacional de Lisboa (FIL), em Lisboa.

Segundo a organização, nesta segunda edição do evento em Portugal, participam 59.115 pessoas de 170 países, entre os quais mais de 1.200 oradores, duas mil 'startups', 1.400 investidores e 2.500 jornalistas.

A cimeira tecnológica, de inovação e de empreendedorismo nasceu em 2010 na Irlanda e mudou-se em 2016 para Lisboa por três anos, com possibilidade de mais dois de permanência na capital portuguesa.