Uma investigadora da Universidade de Coimbra (UC) assegura que «a terceira parte do manuscrito do segredo de Fátima é realmente um documento autêntico», depois de, a convite do Vaticano, ter feito o seu estudo diplomático e paleográfico.

«Realizei nos arquivos da Congregação para a Doutrina da Fé», no Vaticano, «o exame completo do manuscrito», tendo concluído que se trata «de facto, de um autógrafo da Irmã Lúcia», afirmou à agência Lusa, nesta terça-feira, a investigadora e catedrática da Faculdade de Letras da UC Maria José Azevedo Santos.

A especialista, que foi «a primeira mulher leiga a ter acesso ao documento», datado de 03 de janeiro de 1944, analisou «o conteúdo, as formas usadas, a datação, elementos relacionados com termos de posse e outras marcas» do registo, que, salienta, «está em belíssimo estado de conservação».

A análise do manuscrito no plano diplomático-paleográfico, designadamente através do seu enquadramento na «cultura gráfica da época e da mulher que o escreveu», reforça «a convicção de que estamos, na verdade, perante um documento autêntico, escrito pela Irmã Lúcia», sublinha Maria José Azevedo Santos.

O estudo, que será publicado em 2014, incide sobre outros aspetos, como «a morfologia da escrita e a disposição do texto», produzido muito provavelmente com «uma pena de aparo metálico», a tinta azul, numa folha de «papel de carta, de quatro páginas, de cor bege, pautado (16 linhas)» e dobrado ao meio.

No documento, «não há quaisquer vestígios de apostilas ou comentários», refere a investigadora, cuja pesquisa foi facilitada pelo facto de a vidente de Fátima ter sido uma pessoa que «escreveu muito (talvez também pela sua condição de religiosa de clausura)», deixando muitos registos, designadamente contemporâneos do manuscrito analisado.

Além de não possuir qualquer vestígio de adenda ou de comentário, o texto de Lúcia também não está assinado, mas «não há lugar a qualquer dúvida» que foi escrito pela vidente, quando vivia em Tui (Espanha), sustenta Maria José Azevedo Santos, frisando que não fez um estudo teológico, mas uma análise diplomático-paleográfica.

O convite da Santa Sé, através do Santuário de Fátima e com «autorização prévia» do Papa Francisco, para Maria José Azevedo Santos fazer a investigação, foi, para si, «uma grande honra» e «uma enorme surpresa», segundo sublinhou.

Maria José Azevedo Santos foi «a primeira mulher leiga a ter acesso aos arquivos secretos do Vaticano», onde se deslocou, para o efeito, em setembro deste ano.

O manuscrito da terceira parte do «Segredo de Fátima» está patente, até 31 de outubro de 2014, no Santuário de Fátima, na Zona da Reconciliação da Basílica da Santíssima Trindade, no âmbito da exposição «Segredo e revelação», que destaca «as três partes do chamado Segredo de Fátima», refere o santuário, destacando que o documento é agora mostrado pela primeira vez ao público.

A interpretação teológica do «Segredo de Fátima», feita pelo cardeal Joseph Ratzinguer, agora Papa emérito Bento XVI, é o fio condutor da exposição, acrescenta a mesma nota, publicada na página eletrónica do santuário.