O especialista em oceanos Tiago Pita e Cunha defendeu hoje que Portugal devia avaliar o serviço prestado pelo mar na captação de dióxido de carbono, que nalgumas áreas tem "uma relevância gigantesca" pelo seu papel no combate às alterações climáticas.

O carbono que é retido em algumas áreas marítimas, como os estuários ou as rias, "tem uma relevância gigantesca" e representa um serviço semelhante àquele prestado pelas florestas e "era interessantíssimo para Portugal compreender o serviço ecossistémico que uma área tão relevante como a zona húmida do Tejo produz para toda a Europa", disse à agência Lusa Tiago Pitta e Cunha.

"Era bom conseguir avançar na contabilização" das "centenas de milhares de milhões de CO2 [dióxido de carbono] depositadas nos lodos dessa enorme região", salientou.


Tiago Pitta e Cunha falava a propósito da conferência sobre oceanos, integrada na iniciativa 'Riviera Talks', que se realiza em Cascais no domingo e conta com a participação do príncipe Alberto II do Mónaco, além do coordenador do grupo de especialistas das Nações Unidas responsável pelo Relatório Global de Avaliação dos Oceanos, recentemente publicado, Alan Simcock, e da ambientalista Patricia Ricard.

"Grande parte do carbono emitido para a atmosfera que causa o aquecimento global e as alterações do clima é absorvido pelo mar", explicou Tiago Pitta e Cunha, especificando que ou fica na água do oceano e é absorvido pelo fitoplancton, base da cadeia alimentar marinha que o consome, ou se deposita no fundo do mar.


O mar também "é o principal regulador das temperaturas do planeta e tem conseguido absorver uma boa parte do aumento da temperatura atmosférica" e, portanto, tem dado um "contributo decisivo" para o objetivo de limitar a dois graus a subida até final do século apontado pelos cientistas, mas sem grande adesão concreta dos responsáveis políticos, que não conseguiram chegar a consenso acerca de medidas.

Depois de várias tentativas nos últimos anos, está agendada para dezembro, em Paris, uma conferência das Nações Unidas para tentar que os países cheguem a um acordo com vista à redução das emissões dos gases com efeito de estufa e à definição de medidas, nomeadamente o financiamento da adaptação às alterações climáticas.

O especialista em políticas dos oceanos questiona por que razão, "sendo o mar tão relevante para as alterações climáticas, quer porque é o principal mitigador do fenómeno através da absorção de carbono pela geração de oxigénio e pela regulação da temperatura, quer pelos impactos que sofre, como não há uma maior ligação entre o mar e as alterações climáticas".

E recorda que o painel das Nações Unidas para as Alterações Climáticas apenas no último relatório, o quinto, se pronunciou sobre esta questão reconhecendo a ligação e apontando que, para o futuro estes dois aspetos têm de ser trabalhados e investigados "de uma forma muito mais séria, o que "é fundamental para um país como Portugal".

Para Tiago Pitta e Cunha, era importante o país compreender que devia investir "na adaptação aos impactos das alterações climáticas", mas deveria também "ser o país mais interessado em investigar a fundo" a relação do mar com as mudanças do clima.

"A biodiversidade [principalmente marinha] vai ser também o nosso ativo do futuro", realçou.