Steve Jobs, co-fundador, antigo presidente e diretor executivo da Apple, morreu há três anos, vítima de cancro no pâncreas. Em 2009, foi considerado o CEO da década pela «Fortune Magazine», mas para muitos, Jobs foi o CEO do século.

Depois de ter resignado ao cargo de diretor executivo, poucos meses antes de morrer, muitos especialistas questionaram o futuro da gigante tecnológica norte-americana. Timothy Cook, o sucessor escolhido por Jobs, tinha uma árdua tarefa pela frente: manter a Apple com o estatuto de empresa criativa, inovadora e visionária e, além disso, ter a capacidade de liderar a empresa tecnológica com o valor de ações mais elevado na Bolsa de Nova Iorque.

O que se podia esperar da Apple sem Steve Jobs? Esta era a questão que preocupava investidores e especuladores financeiros.

Muitos admitiam a queda das ações da empresa. As vozes mais pessimistas iam mais longe e afirmavam mesmo que a «verdadeira Apple» morria com o desaparecimento de Steve Jobs.

Com efeito, a Apple passou por um período de «crise» depois da morte de Jobs.

Por um lado, porque empresas como a Samsung e a Google (com o Android) conseguiram acompanhar os produtos da empresa no mercado das comunicações móveis e dos tablets - sabe-se que a «guerra» entre a Apple e a Samsung é a disputa mais mediática entre empresas tecnológicas.

Depois, porque desde a morte de Steve Jobs até 2014, a Apple lançou produtos que não tiveram a mesma aceitação que os anteriores. Tome-se o exemplo dos modelos de iPhone 5S e 5C, em 2013: apesar das vendas estratosféricas, os investidores não ficaram particularmente fascinados com os dispositivos, considerando que estes não surpreendiam em relação aos seus antecessores. Na prática, os especialistas questionavam a capacidade criativa e inovadora da marca que até então a tinha distinguido e tornado numa marca de culto.

É certo que mesmo durante este período, a Apple continuava a ser uma das mais poderosas empresas do mundo, com avultados lucros de vendas no mercado. Mas a exigência dos investidores e especialistas era elevada. O mundo reivindicava um produto que tivesse o mesmo impacto que tiveram o iPod ou o iPhone que transformaram por completo, não só os leitores de música e telemóveis, mas toda a indústria musical e a das comunicações móveis. No fundo, pediam a aplicação do slogan que ainda hoje marca a indústria: «Think Different» (Pense de forma diferente).



Este ano, a empresa de Tim Cook parece ter novamente caído nas graças dos especialistas: o lançamento do iPhone 6 e o do 6 Plus e a incursão nos smartwhatches despertaram novamente o interesse do mundo tecnológico e empresarial.

Afinal, «a verdadeira Apple», que é agora a Apple de Tim Cook, parece estar tão viva como há três anos atrás.

Quer isto dizer que, afinal, nada mudou entre a Apple de Steve Jobs e a Apple de Tim Cook? Não propriamente. Houve mudanças, sim, pelo menos na lógica do seu funcionamento enquanto empresa. Vamos por partes.


O que distingue a Apple de Jobs e a Apple de Cook?

Apesar de ser considerado um dos empreendedores mais importantes de sempre, a verdade é que Jobs sempre tentou dirigir a Apple como a pequena startup que tinha co-fundado em 1976, com Steve Wozniak e Ronald Wayne, na altura com o nome de Apple Computer Inc.

Mesmo com o sucesso dos produtos que a tornaram no fenómeno que é hoje, o workflow da Apple não era o tradicional para uma grande empresa tecnológica. Todas as decisões importantes passavam por Jobs e o seu interesse pessoal era um fator decisivo em qualquer passo que a Apple dava.

Mais, o antigo diretor executivo intervinha em todas as aquisições da Apple e estas, além de se tratarem sempre de pequenas startups, ficavam integradas na hierarquia da empresa, ao invés de continuarem a operar como subsidiárias independentes.

Um dos conselhos de Jobs ao seu sucessor terá sido «faz aquilo que achares ser certo», segundo revelou o próprio Cook. Certo ou não, a verdade é que com Cook as dinâmicas da marca mudaram substancialmente.

A Apple de Cook parece querer assumir-se claramente como a grande empresa que é e abandonar a mística de startup que Jobs tinha preservado.

Para começar, Tim Cook, ao contrário do que acontecia com o seu antecessor, não participa diretamente em muitas das decisões da empresa. Talvez por isso, o atual CEO decidiu expandir o departamento que trata as aquisições da marca, conferindo à empresa a capacidade de considerar vários negócios e acordos ao mesmo tempo, sem envolver Cook nos detalhes dos mesmos.

Mas o maior sinal de que a Apple está realmente diferente talvez tenha sido a compra da Beats, em maio deste ano. A empresa de auriculares que também detém um serviço de música por subscrição custou cerca de 2,2 mil milhões de euros, um valor que Jobs nunca tinha gasto para comprar outra empresa. Além disso, Tim Cook deixou que a Beats continuasse a funcionar como uma subsidiária independente.


Tim Cook, o atual diretor da Apple 

Claro que apesar destas alterações a Apple mantém o seu cerne original. A questão agora é perceber até onde podem chegar as diferenças que separam a visão de Cook da do seu antecessor. E isto leva-nos à próxima questão...


Que desafios deverá a Apple enfrentar no futuro?


A maioria dos especialistas não acredita que Cook tenha a mesma visão e o mesmo sentido estético que Jobs - o design é um elemento fundamental para a marca..

Para já a Apple mantém uma vasta equipa de brilhantes engenheiros, programadores e designers, a mesma que trabalhou sob a liderança de Jobs. Aqui, talvez o nome mais emblemático seja o de Jony Ive, o reconhecido designer que desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento dos produtos, desde 1997.

A dúvida agora é se sem Jobs a dirigir a empresa haverá conflitos que no passado não existiam. Recorde-se que em 2012, Cook despediu dois membros da chefia, Scott Forstall, que dirigia o departamento de programação e software, e John Browett, que era responsável pelas das lojas das marca, e reestruturou parte da equipa.

Tudo isto surge numa altura em que a concorrência com empresas como a Google e a Samsung se intensifica.

Enquanto as concorrentes invadem o mercado com smartphones de baixo custo, a Apple continua a apostar numa qualidade mais alta em troca de um preço também mais elevado. Importa perceber o caminho que a gigante de Sillicon Valley vai escolher e que consequências isso poderá ter. Segundo as estimativas dos analistas, 80% dos consumidores não têm a capacidade de adquirir smartphones de alto custo. 

Recorde agora como tudo começou, recuando a 1976, data da fundação da empresa.