Há coisa de três meses e meio celebrámos a antevisão do Windows10 e ficámos curiosos com os anunciados HoloLens: os óculos - o computador!, melhor dizendo - de Realidade Aumentada da Microsoft. Entretanto fomos convidados para ir à Build, em São Francisco, nos EUA, todos estes meses depois... E porque o lançamento do Windows10 está iminente - o novo sistema operativo vai ser disponibilizado já no princípio deste Verão - já íamos à espera de grandes novidades. E a Microsoft não se fez rogada...
 
Cinco mil pessoas nas filas desde manhã cedo. Vieram um pouco de todo o Mundo para aquilo que é, essencialmente, um encontro de programadores. Uma multidão absolutamente impressionante, para não perder as novidades da Microsoft e a presença das suas superstars, a começar pelo próprio Satya Nadella, o presidente da empresa. É uma conferência de programadores, pelo que não podiam faltar.
 
As primeiras linhas de BASIC da Microsoft foram escritas por Paul Allen há 40 anos, em 1975. Um batalhão de jornalistas, salões sempre cheios, canais de televisão a emitir em direto durante todo o dia. É uma festa.
 
Para além das conferências, uma parafernália de gadgets para experimentar. Desafios, competições. E muita gente a fazer as primeiras experiências com robôs, carrinhos telecomandados. A Microsoft faz questão de mostrar que o Windows10 funciona em todas as plataformas.
 
Havia DJ's a tocarem em mesas Surface, ecrãs touch em grande, música e imagens geridas ali, em direto. Snacks a gosto e quantidades industriais de café.
 
Mas fundamentalmente é um encontro de programadores, horas e horas de palestras difíceis de entender. Percebemos que o Windows10 também está feito para os jogos. Podemos gravá-los ou partilhá-los, no telemóvel, no PC, ou na XBox.
 
Seja qual for o ecrã, mesmo que não haja ecrã, é só um sistema operativo, uma só plataforma, uma só loja. "One code to rule them all". Agora, qualquer aparelho é um PC. E isso inclui, pasmem, o Android e o iOS. Ou seja, passamos a fazer coisas na Google e na Apple com o Windows.
 
O novo Windows10. O novo browser já tem nome. Trunfos? Uma nova página de abertura que organiza automaticamente os nossos favoritos: a Cortana, a nossa assistente pessoal, omnipresente em todas as pesquisas e ações, ela tem sempre uma sugestão a fazer, mas sobretudo a possibilidade de anotar os sites que visitamos, ali, na hora, e partilhá-los de imediato com quem quisermos. Vai mudar a forma como navegamos na Internet. Basicamente, é com isto que a Microsoft espera pôr o Windows10 em mil milhões de máquinas, algures durante os próximos dois, três anos.
 
É preciso lembrar aqui que, por exemplo, na Google uma coisa é o Android e outra é o Chrome. Na Apple uma coisa é o iOS, outra coisa é o MacOS. O Windows passa a ser completamente transversal a todas as máquinas e a todos os sistemas - ou pelo menos é essa a intenção.
 
Mas o melhor (falo por mim, obviamente) foram - lá está - os HoloLens. Os óculos estão agora na sua versão quase final, já não há fios, já funcionam exatamente como é suposto, sem apoio de nenhum computador, nenhum telemóvel, nada!, só os óculos. Os óculos são "o computador" e deixaram o público da Build completamente estarrecido.
 

 “Os humanos vivem no mundo real, e não devem estar confinados ao ‘virtual’ ou apenas ao ‘digital’. Nós vivemos as nossas vidas em três dimensões. Movemo-nos, vemos e ouvimos em três dimensões. E estamos prontos para que a tecnologia evolua para além dos aparelhos, dos ecrãs e dos pixéis, que evolua para lá das presentes fronteiras digitais. Em Janeiro apresentámos o Microsoft Hololens, o primeiro (e único) computador holográfico, completamente autónomo. E hoje vamos dar O Próximo Passo. Deixem-me explicar-lhes um pouco deste cenário. O Darren Bennett está com uns HoloLens e está a ver este globo ali mesmo, no seu mundo. Mas também temos aqui este equipamento de vídeo especial, que nos permite ver os hologramas no ecrã... tal como se a própria câmara tivesse uns HoloLens. E adivinhem só: está a correr em Windows 10. Bem-vindos ao Windows holográfico! Como podem ver, o Darren personalizou o seu espaço. Em vez de andar perdido a vasculhar menus, tudo está onde ele decidiu”, explicou Alex Kipman, da Microsoft.

 

 “São simples aplicações universais do Windows, que pusemos no formato de holograma. Seja um quadro na parede, ou algo mais ‘substancial’ como aqui o meu fiel amigo Fang (olá, parceiro!), podemos personalizar o espaço à nossa vontade. Vou sacar o meu menu holográfico de ‘iniciar’, e vou abrir o Skype... e portanto vou pegar nas pessoas que me são mais importantes, e pendurá-las aqui nesta parede. E portanto este é o sítio onde costumo passar mais tempo no meu apartamento, e fui eu que pus aqui as aplicações de que preciso ou que vou querer experimentar. Por exemplo, estou a planear uma viagem ao Havai daqui a umas semanas, e portanto pus aqui esta espantosa aplicação de meteorologia, de maneira a que quando ando por aí me baste dar uma espreitadela, e ver como será o tempo quando lá estiver. À minha esquerda tenho um leitor de vídeo. Só tenho de lá chegar, dar um toque e estou no meio da ação!”, acrescentou Darren Bennett, também da Microsoft.

 
Na verdade não é bem assim. Passa-se esta ideia de que a gente olha e está ali tudo à frente, de uma só vez... e não funciona assim. Já vi pessoas a dizer que é como se fosse uma espécie de periscópio; outras a dizer que é como ter um telemóvel à frente dos olhos. O facto é que não se vê tudo de uma só vez.
Se eu estiver a olhar para a cara de uma pessoa, por exemplo, não lhe vejo os pés, a não ser que baixe a cabeça e portanto, se estiver a olhar para os pés, não vejo a cabeça. O campo de visão é mais limitado do que o vídeo deixa entender. Estamos limitados ao tamanho do visor, e não é completamente "imersivo".
 
E como é que eu sei isto? Porque estive lá. Tive o privilégio de ser um dos dois primeiros portugueses a experimentar a nova tecnologia da Microsoft. Isto põe-se na cabeça como se fosse um boné de basebol, "one size fits all". É um computador, mais é mais leve que um portátil, quase confortável. Implica medir a distância média entre as pupilas, mas é o único preliminar que a coisa envolve: a partir daí é sempre a andar. Controlam-se com o olhar (a máquina percebe se estamos a focar isto "aqui" ou aquilo "ali"), com os gestos ("air taps", uns toques no ar), e com uns comandos de voz. Tipo: "mete a imagem".
 
Experimentar os HoloLens é uma história por si só. Não havia licença para tirar quaisquer imagens, nem para levar os telemóveis sequer. Meia hora a cada jornalista. À porta de cada sala, homens de negro, uns brutamontes (filme, completamente!), essa ideia de "segurança apertada". Na verdade, subimos e descemos tantos andares, que perdemos o sentido de orientação.
 
Mas voltemos ao HoloLens propriamente ditos. Primeiro: é absolutamente impressionante "agarrar" num objeto (um "holograma", é disso que se trata), e pousá-lo em cima de uma mesa, por exemplo. Não é pegar numa imagem do Paint, e pousá-la onde calha. A máquina sabe que está lá uma mesa e portanto a imagem chega à mesa e para, "bate" na mesa, e não vai mais longe. A física é muito perfeita.
 
Segundo: vimos isto a acontecer com dois, três, quatro objetos ao mesmo tempo, mais um ecrã de Skype a correr em tempo real, imagem e som. É brutal em termos gráficos e processamento, mas em nenhum momento a máquina gaguejou, nunca houve um glitch - real e virtual misturados, sem nunca hesitar, sem nunca nos lembrarmos tipo "eh pah, isto é filme". Ou seja, mesmo esta limitação no campo de visão não deita abaixo a promessa dos computadores holográficos da Microsoft.
 

 “Temos um novo suporte para expressar a nossa criatividade, para visualizar o nosso trabalho, e para partilhar ideias. As nossas criações digitais tornam-se tão mais relevantes, quando ganham vida no mundo real! Mas isto é apenas o princípio. O Windows holográfico também nos dá uma oportunidade única para mudarmos a forma como ensinamos e aprendemos, de uma forma mais eficaz”, refere Alex Kipman, da Microsoft.

 

 “Hoje em dia usamos cadáveres e ilustrações para ensinar Anatomia. Esta prática não vê alterações de relevo desde há mais de 100 anos porque, pura e simplesmente, não se encontrou outra. A realidade mista do HoloLens tem o potencial para revolucionar o ensino, trazendo conteúdos 3D para o mundo real”, afirma Mark Griswold, professor da Case Western Reserve University.