O lixo encontrado na costa portuguesa é principalmente composto por pequenos fragmentos de plástico. Esses fragmentos são mais frequentes perto de áreas portuárias e industriais e são comidos pelos peixes, que o confundem com alimento, concluiu um estudo da Universidade Nova de Lisboa.



O projeto Poizon «Microplásticos e poluentes persistentes: uma dupla ameaça à vida no mar» estudou pela, primeira vez, em Portugal a presença na costa de plásticos que permanecem muito tempo na natureza. Esses plásticos acabam por ser ingeridos pelos animais e não se sabe ainda quais as consequências para os humanos.



De acordo com a Lusa, o estudo analisou 11 praias, com maior incidência na costa ocidental atlântica. Isto porque no Algarve há menos acumulação de lixo marinho, devido a um mar mais calmo, com menos correntes, e à limpeza efetuada nas zonas turísticas.



«Encontrámos uma prevalência de plástico, muito importante, de 97%, entre todos os materiais, como papel, vidro ou têxteis. De todo o plástico, 57% é de pastilhas de resina provenientes da indústria», explicou esta quinta-feira à agência Lusa a coordenadora do projeto Poizon, Paula Sobral.



A investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa acrescentou que «todos estes materiais apresentam-se contaminados», nomeadamente com hidrocarbonetos.



A avaliação das dimensões dos bocados de plásticos mostrou que grande parte, ou seja, «67% são fragmentos menores do que cinco milímetros, portanto pertencem à categoria dos microplásticos», e só 8% do plástico tem um tamanho superior a 2,5 centímetros, especificou Paula Sobral.



«Interessa-nos evidenciar a grande quantidade de bocados, de fragmentos, em degradação que existe no oceano e que vai produzindo essas partículas cada vez mais pequenas e que se encontram numa percentagem muito elevada», explicou a cientista.



A equipa de investigadores encontrou maior quantidade de plástico nas praias localizadas mais perto da foz de grandes rios, como em Matosinhos ou na Fonte da Telha, mas também em Sines, «o que sugere grande influência terrestre».



Estimativas das Nações Unidas apontam para que cerca de 80% do lixo marinho tenha origem terrestre e o restante venha do mar e esteja relacionado com a pesca e o tráfego de navios.



A degradação dos polímeros (plástico), que é mais rápida em alguns tipos deste material, contribui para o aumento do número de fragmentos que passam a existir no mar e «essas micropartículas são confundidas com alimento por muitas espécies marinhas» que as ingerem inadvertidamente, apontou Paula Sobral.



Os fragmentos ficam principalmente retidos no tubo digestivo e «ainda não conseguimos provar que existe uma transferência de poluentes das partículas para os tecidos dos organismos», disse a investigadora.



Os resultados do projeto Poizon vão ser apresentados na sexta-feira, em Lisboa.