Um estudo longitudinal com jovens nascidos no Porto em 1990 e inquiridos aos 13, 17, 21 e 24 anos, revelou que jovens com baixos níveis de escolaridade têm mães e pais pouco escolarizados, profissões pouco qualificadas e baixos rendimentos.

De acordo com o estudo, a que a Lusa teve acesso, “uma minoria está ainda a estudar aos 21 anos (15,6%) e uma maioria está a trabalhar (48,8%) ou desempregada (33,2%). O oposto acontece com os jovens com pais e mães muito escolarizados”.

O EPITeen24 é um estudo que pretende analisar, na perspetiva conjugada das ciências sociais e da saúde pública, as trajetórias individuais e sociais da geração de indivíduos nascidos em 1990 e que, em 2003/2004, frequentavam as escolas públicas e privadas do Porto (total de 2.942 indivíduos inquiridos aos 13, 17, 21 e 24 anos).

O projeto associa uma equipa de investigação do ISCSP-ULisboa (Instituto Superior das Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa) à equipa de investigação da FMUP e do ISPUP (Faculdade de Medicina e Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto), que idealizou e lançou este estudo de coorte (grupo) em 2003.

Com o título “Reproduzir ou contrariar o destino social? Estudo longitudinal de uma geração nascida nos anos 90 do século XX”, a investigação aborda uma diversidade de assuntos como a educação, trabalho, saúde e género.

No grupo de jovens com pais pouco escolarizados são as raparigas que atingem maior nível de escolaridade (66,7%). Já no grupo de jovens cujos pais têm licenciatura ou mais, são os rapazes que encontram maior dificuldade em atingir o mesmo nível de escolaridade (58%).

Concluiu-se também que “as raparigas são tendencialmente mais escolarizadas do que os rapazes (44,1% daquelas tem ensino superior face a 31,7% destes)”.

Todavia, apesar de uma maior escolarização das raparigas, “persistem desigualdades de género à entrada no mercado de trabalho”, salienta o estudo.

Em relação a comportamentos de risco, os investigadores consideram que estão associados a “um pior desempenho educacional aos 21 anos: ter estado envolvido numa luta física ou já ter sido suspenso aos 17 anos estão associados a maior probabilidade relativa de não ter concluído o 12.º ano de escolaridade”.

“Uma parte substancial das diferenças no desempenho educacional está associada à escolaridade dos pais, o que sugere a continuidade de mecanismos de desigualdade de oportunidades num quadro geral de democratização da educação”, destacam.


No estudo foi feito também um diagnóstico de depressão tendo em conta diferentes variáveis, tais como sexo, nível de escolaridade, leitura de livros (13 anos), retenção escolar (17 anos), tempo passado a ler e/ou a estudar aos fins de semana (17 anos), tempo passado a jogar computador aos fins de semana (17 anos) e frequência atual de ensino.

O perfil feminino (61,2%) caracteriza-se pela associação com a retenção escolar e com o abandono definitivo da escola. Tendencialmente são jovens com o ensino básico (até ao 9.º ano de escolaridade) que não tinham hábitos de leitura aos 13 anos e que, aos 17, passavam mais tempo a jogar computador do que a ler.

O perfil masculino (38,8%) apresenta “características opostas ao perfil feminino. São rapazes que tendencialmente nunca reprovaram, têm pelo menos o 10.º ano de escolaridade, o ensino secundário, frequência universitária ou ensino superior, continuam a estudar, e passam mais tempo a ler do que a jogar computador”.

Sobre o envolvimento cívico dos jovens, “constatamos que o envolvimento em organizações cívicas e políticas aumentou significativamente na passagem dos 17 para os 21 anos” em contraste com o que aconteceu com o envolvimento em organizações de desporto e culturais que “diminuiu significativamente”.

Os resultados do estudo serão apresentados sexta-feira, na Fundação Champalimaud, em Lisboa.