O veneno letal do caracol marinho «Conus geographus» pode vir a ser utilizado no tratamento da dor crónica em doentes com cancro, sida, Alzheimer ou diabetes, anunciou hoje à Lusa o geneticista Agostinho Antunes, que participou na investigação.

«Estes caracóis marinhos têm uma grande diversidade de venenos, alguns de extrema potência, que conseguem ser dez mil vezes mais potentes que a morfina», sem ter as suas consequências viciantes e os seus efeitos colaterais, disse o investigador, que faz parte da equipa que estudou esta espécie da Grande Barreira de Coral na Austrália.

A investigação, publicada na revista científica Nature Communications, comprova, pela primeira vez, que um animal venenoso utiliza venenos distintos para caçar presas e defender-se de predadores.

«No sentido prático, este conhecimento abre caminho para a identificação de novas toxinas de venenos que atuam no sistema nervoso humano, podendo resultar em novos tratamentos para a dor crónica», salienta o estudo realizada por equipa de cientistas australianos e pelos investigadores Kartik Sunagar e Agostinho Antunes do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, da Universidade do Porto.

O Conus geographus é um caracol altamente perigoso, tem a picada mais tóxica conhecida entre as espécies de Conus, e é responsável por mais de 30 mortes humanas conhecidas, não existindo um antiveneno para a sua picada.

Segundo o estudo, os venenos de caracóis marinhos do género Conus englobam as estratégias mais sofisticadas de envenenamento conhecidos no reino animal, permitindo que estes pequenos e lentos animais capturem vermes, moluscos e mesmo peixes.

«Conhecer os venenos destes animais é importante para tentar desenvolver antídotos contra esses venenos, mas, ao mesmo tempo, permite também a descoberta de novas moléculas que podem ter aplicação farmacológica», sublinhou Agostinho Antunes.

Cada uma das espécies de caracóis marinhos Conus produz mais de mil conopeptidos distintos, estando muito poucos destes compostos, caracterizados farmacologicamente (cerca de 0,1%).

Esses compostos têm grande potencial como drogas analgésicas, nomeadamente como alvo de recetores específicos da dor humana, adianta o estudo.

Nesse sentido, a investigação destaca o inibidor Prial aprovado pelo FDA nos Estados Unidos da América, em 2004, sendo utilizado para tratar a dor intratável.

«O tratamento da dor neuropática crónica com conopeptidos pode assim estender-se a pacientes que sofram de cancro, artrite, herpes, diabetes, Alzheimer, Parkinson e SIDA», defende.

«Pessoas que sofrem de determinadas patologias que lhes causa imensa dor, como cancro, diabetes, artrite, ou Alzheimer, podem vir a ser tratados com este tipo específico de droga que é bastante potente e tem uma importância bastante grande para a saúde humana», salientou Agostinho Antunes.

O investigador adiantou que estas espécies do género Conus existem em zonas tropicais, em águas quentes dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, podendo também encontrar-se em Cabo Verde. Em Portugal continental, não existem estas espécies.

Agostinho Antunes adiantou que este trabalho vem no seguimento de outros estudos que tem realizado em animais venenosos, como morcegos, vampiros, cobras, lagartos, cefalópodes (polvos, lulas e chocos), escorpiões e aranhas.

Milhares de pessoas morrem anualmente, a nível mundial, da mordedura de animais venenosos, o que acentua a importância do estudo de venenos, tanto em países desenvolvidos como em países subdesenvolvidos.