A agência espacial europeia ESA lançou hoje um veículo não tripulado para o espaço, com tecnologia portuguesa, para testar a reentrada controlada de naves na atmosfera terrestre, operação que foi bem-sucedida, anunciou em comunicado.

O Veículo Intermediário Experimental (Intermediate eXperimental Vehicle, IXV) foi lançado do Centro Espacial de Kuru, na Guiana Francesa, às 13:40 de Lisboa, precisou a ESA numa nota.

Para a agência espacial europeia, trata-se de um passo importante, uma vez que poderá tornar-se independente dos Estados Unidos (NASA) e da Rússia (Roscosmos) no lançamento para o espaço de veículos autónomos, com regresso garantido à Terra.

O grupo português ISQ participou no IXV, ao trabalhar, em conjunto com uma companhia francesa, no sistema de proteção térmica, que permite reutilizar um aparelho deste tipo várias vezes, «sem grande manutenção», explicou à Lusa o coordenador do projeto na empresa portuguesa, Paulo Chaves.

Do tamanho de um carro grande, o IXV conseguiu voar em órbita, a 412 quilómetros de altura da Terra, como um avião, apesar de não ter asas como uma aeronave, apenas uns «flaps» (dispositivos sustentadores que se veem na parte posterior das asas dos aviões).

Depois, ao fim de uma hora e quarenta minutos de voo orbital, o aparelho, com quase cinco metros de comprimento e perto de duas toneladas de peso, posicionou-se, reentrou na atmosfera terrestre e amarou em segurança, graças a um dos seus quatro paraquedas, usados para travar a velocidade hipersónica, num ponto específico do Oceano Pacífico, a cerca de 3.000 quilómetros a oeste das ilhas Galápagos, tal como o previsto.

Balões gigantes mantiveram o veículo a flutuar na água, até um navio, fundeado na zona há um mês, o recolher. O IXV regressará à Europa para análises detalhadas no centro técnico da ESA, na Holanda.

A partir do IXV, poderão ser construídos veículos semelhantes, para futuras missões espaciais, mas com trens de aterragem, para que os aparelhos possam fixar-se no solo, numa pista de aterragem.

Paulo Chaves adiantou à Lusa que veículos como o IXV abrem as portas à Europa para efetuar missões não tripuladas ao espaço, com regresso assegurado à Terra, de observação do «planeta azul», de abastecimento da Estação Espacial Internacional, de manutenção, reabastecimento ou lançamento de microssatélites, de redução do lixo no espaço e de recolha de amostras de materiais de outros planetas.

Meios de transporte como o Veículo Intermediário Experimental podem ainda, segundo a ESA, auxiliar na investigação sobre a microgravidade e providenciar o regresso de astronautas à Terra.

O mesmo responsável do ISQ assinalou que o IXV é um veículo mais pequeno e barato do que os aparelhos espaciais tripulados, tendo sido colocado na órbita terrestre por um lançador europeu, o Vega.

A construção do Veículo Intermediário Experimental foi suportada por sete Estados-Membros da ESA - Itália (financiador maioritário), Portugal, França, Suíça, Espanha, Bélgica e Irlanda - e envolveu um consórcio de cerca de 40 empresas, centros de investigação e universidades.

O aparelho custou 170 milhões de euros, de acordo com a ESA, tendo Portugal contribuído com mais de 870 mil euros, indicou à Lusa o Gabinete do Espaço da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Com o IXV, a ESA espera dominar o processo delicado de reentrada na atmosfera terrestre, tecnologia que, até agora, era controlada por norte-americanos, russos e chineses.

A bordo do veículo, cuja construção começou em 2009, seguiram mais de 300 sensores, que captaram uma série dados que vão ser analisados.

Com o voo de hoje, foram testados novos sistemas europeus de aerodinâmica, proteção térmica e navegação automática, que serão usados no desenho de futuros veículos espaciais reutilizáveis de transporte capazes de regressar à Terra de forma autónoma e de aterrar em condições.

Para Giorgio Tumino, responsável pelo projeto IXV na agência espacial europeia, a Europa optou por «uma via mediana», entre as cápsulas russas Soyuz, «simples mas não manobráveis na aterragem», e os veículos com asas, como o vaivém Space Shuttle norte-americano, desativado em 2011, «muito manobráveis mas muito complexos e caros».