A forte seca que tem atingido Portugal fez descer, em setembro, a quantidade de água armazenada em todas as bacias hidrográficas de Portugal continental, na comparação com agosto, segundo o Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH).

Das 60 albufeiras monitorizadas pelo Sistema, três apresentam disponibilidades hídricas superiores a 80% do volume total e 23 têm disponibilidades inferiores a 40% do total.

A Associação Sistema Terrestre Sustentável Zero alerta que "esta situação pode vir a durar muitos meses" e a falta de água está já a colocar "em causa a água para consumo humano".

"Esta situação pode vir a durar muitos meses e as medidas tem de ser tomadas com uma grande antecipação o que, em nosso entender, não aconteceu nos últimos meses. As questões associadas à gestão entre as aguas subterrâneas e as águas superficiais, os preços da água, tudo isto exige uma ação preventiva que a partir de agora deve ser ainda muito mais intensa porque não sabemos se não vamos ter um 2018 infelizmente dramático. Estamos numa situação que é efetivamente cada vez mais grave em que já não se fala do evitar da água para uso agrícola já está em causa a água para consumo humano", afirmou Francisco Ferreira, da Zero, à TSF.

Efeito dramático nas emissões de gases

A seca levou a uma redução da eletricidade produzida a partir das barragens e à necessidade de recorrer às centrais térmicas, com efeito "dramático" nas emissões de gases com efeito de estufa, alertou a Zero.

"A seca está a ter um efeito dramático nas emissões de dióxido de carbono associadas à produção de eletricidade", afirma a Associação Sistema Terrestre Sustentável Zero, em comunicado.

A associação quantificou as emissões associadas à produção de eletricidade entre janeiro e setembro de 2017, concluindo que se atingiu "cerca de 24 milhões de toneladas de dióxido de carbono, um aumento de 5,7 milhões de toneladas em relação ao mesmo período do ano passado (+31%)".

Perante esta situação, os ambientalistas defendem ser essencial o investimento em eficiência energética, o encerramento próximo das centrais térmicas a carvão, e a aposta nos recursos renováveis para produção de eletricidade, principalmente solar e eólico.

A Zero analisou dados da Redes Energéticas Nacionais (REN) para a produção de eletricidade em Portugal continental entre janeiro e setembro deste ano e as suas consequências para a sustentabilidade no uso de recursos e emissões de gases com efeito de estufa, que contribuem para as alterações climáticas.

A produção de eletricidade através das grandes barragens desceu 59% na comparação com o mesmo período do ano passado e o recurso a centrais térmicas aumentou 61%.

Ao mesmo tempo, a contribuição das fontes renováveis para a produção de eletricidade recuou 23,3% - 71% para 47,7% -, ou seja, "até final de setembro, menos de metade do consumo de eletricidade foi assegurado por fontes renováveis", realça a Zero.

Em 2016, recorda, a produtibilidade hidroelétrica foi 66% acima da média, enquanto 2017 está com valores 43% abaixo.

As consequências em termos de emissões de gases de efeito de estufa "são verdadeiramente dramáticas", alertam os ambientalistas, já que a produção de eletricidade tem de ser garantida em grande parte pela queima de combustíveis fósseis, em particular nas centrais a carvão, de Sines e do Pego, e nas de ciclo combinado a gás natural (que mais que duplicaram o total da sua produção: +225% em relação ao mesmo período de 2016).

Tendo em conta a continuação e agravamento da situação de seca, "as emissões tenderão a aumentar", conclui a Zero.

Numa análise realizada há dois meses pela associação, é referido que, 2017, "com os efeitos da seca na produção de eletricidade e com grandes áreas ardidas, muito provavelmente este será um dos anos com maiores emissões em Portugal desde o início da década".