Uma em cada três pessoas infetadas com o VIH diz ter sido discriminada no acesso a cuidados de saúde no último ano, revela um estudo que analisou o estigma relacionado com o vírus em Portugal.

O «Stigma Index Portugal», que será divulgado na III Conferência VIH Portugal, inquiriu 1.474 pessoas infetadas com o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH).

«O objetivo do estudo foi identificar e caracterizar uma situação de que todos falamos, como prioritária para resolver, mas de que não conhecíamos os seus contornos, consequências e causas em Portugal, que é a discriminação pelo facto de se viver com VIH/Sida», disse à agência Lusa o coordenador do estudo e diretor do Centro Anti-Discriminação VIH/Sida.

Sobre as conclusões do estudo, Pedro Silvério Marques disse que ficou «surpreendido» com «o peso que a discriminação tem nos serviços de saúde», pensando que esta carga seria maior no meio laboral.

«Cerca de 30% das situações são originadas nos serviços de saúde, o que é inaceitável», lamentou.

No meio laboral, «além da entidade patronal, há os colegas de trabalho, que podem ter atitudes de discriminação, mas, nos serviços de saúde, o contacto é muito mais direto e pessoal, entre o profissional de saúde e o doente», observou.

Nos últimos 12 meses, foi negada a prestação de cuidados de saúde, como o tratamento de dentes, a 22,9% dos inquiridos, refere o estudo.

Já 5,7% viram recusado o atendimento num serviço de planeamento familiar e 3,4%, na área da saúde sexual e reprodutiva.

Na área da saúde há «um duplo tratamento», disse Pedro Silvério Marques, explicando: «No serviço de doenças infeciosas, de um modo geral, as pessoas são tratadas sem qualquer discriminação, mas quando têm de passar para outros serviços, é uma desgraça».

«O grande problema é que, até agora, todas as tentativas que fizemos de formação direcionada aos técnicos de saúde nos hospitais esbarraram sempre com uma declaração de autossuficiência», sublinhou.

O Centro Anti-Discriminação tem realizado sessões de formação juntos de professores, formadores, técnicos do serviço social, que têm «uma vontade imensa» de participar nestas ações sobre VIH e estigma e sobre a forma correta de tratar as pessoas com VIH, mas «no sistema de saúde isso é impossível».

«Temos insistido com a Direção-Geral da Saúde [DGS] para que seja ela a propor estas formações, porque a reação podia ser diferente, mas não conseguimos», lamentou.

Alguns estudantes de medicina já participaram nestas ações, «mas a classe médica em geral, considera que sabe tudo e não tem nada a aprender com ninguém».

Pedro Silvério Marque espera que os resultados do estudo incentivem a DGS «a olhar para este problema de uma forma muito mais séria e desenhar programas de intervenção juntos dos estudantes de medicina, dos clínicos e dos enfermeiros para que se ultrapasse esta situação, que é vergonhosa para a classe e vergonhosa para os serviços».

Perante as conclusões do estudo, segundo o qual metade dos participantes foi forçada a mudar de casa e perdeu uma oportunidade de trabalho, o responsável disse que existem três «grandes áreas a atacar»: serviços de saúde, o acesso à habitação e o trabalho.

O estudo é um projeto internacional, tendo sido coordenado em Portugal pelo Centro Anti-Discriminação.

Os locais de entrevistas foram os hospitais e centros hospitalares de Lisboa, Porto, Setúbal e Faro, os distritos em que a prevalência dos casos notificados, até 31 de dezembro de 2011, era superior a 5%, refere a Lusa.