Os suspeitos de provocarem tumultos ocorridos há quase seis anos no bairro da Quinta da Fonte, em Loures, negaram esta quarta-feira em tribunal a pertença das armas que lhes foram apreendidas pela PSP.

O Tribunal de Loures iniciou esta manhã o julgamento de 14 pessoas acusadas de motim armado e de detenção de arma proibida, que estão associadas ao tiroteio que envolveu as comunidades ciganas e africanas do bairro da Quinta da Fonte em julho de 2008.

Inicialmente estavam indiciadas 15 pessoas, mas no caso de um dos arguidos o crime de que vinha acusado prescreveu, disse à Lusa a advogada.

Na primeira sessão do julgamento, que decorreu durante todo o dia, o coletivo de juízes ouviu os cinco arguidos que quiseram prestar declarações e cinco testemunhas ligadas à investigação do caso, nomeadamente responsáveis da PSP de Loures e da Polícia Judiciária (PJ).

Todos os arguidos que prestaram declarações negaram que as armas que foram apreendidas durante buscas às suas residências lhes pertencessem, apresentando diferentes justificações para a presença daqueles objetos no local.

Nilson Silva, um dos arguidos, negou, por exemplo, que duas matracas, um machado e uma catana que foram encontradas em cima do seu guarda-fatos lhe pertencessem, dizendo que seriam do irmão.

Outro arguido, Marco Furtado, acusado de ter na sua posse um machado e um bastão extensível, encontrado no interior da sua viatura, referiu que o machado era da mãe e que «servia para desmanchar porcos».

O comissário Resende da Silva, comandante da Divisão da PSP de Loures, foi a primeira testemunha a ser ouvida pelo coletivo de juízes e pelo Ministério Público, que o inquiriram sobre a detenção de dois dos suspeitos e sobre o processo de reconhecimento, através das imagens televisivas, dos envolvidos nos tumultos.

Resende da Silva explicou que dois dos suspeitos foram confrontados por ele e por outro agente no topo do bairro da Quinta da Fonte, «empunhando espingardas-caçadeira», e fugiram para o interior de uma habitação, onde acabaram por ser detidos.

O responsável da PSP disse ainda que logo após a chegada da polícia ao bairro os tiros cessaram e que foram encontrados no lado sul do bairro alguns feridos do incidente.

Relativamente às imagens que levaram ao reconhecimento de quatro dos arguidos, Resende da Silva explicou que estas foram pela primeira vez vistas em peças televisivas que abriram os noticiários da noite do dia 11 de julho.

«Nesse grupo conseguimos identificar algumas pessoas, mas nunca se chegou ao autor das imagens», contou.

Durante a inquirição, o advogado de um dos suspeitos identificados nas imagens questionou Resende da Silva sobre o processo de apreensão das imagens às estações de televisão, a que o responsável da PSP respondeu não ter sido «ordenado» por si.

As imagens dos incidentes, dos quais resultaram nove feridos ligeiros e danos em várias viaturas, chocaram o país, tendo levado a tomadas de posições e reações da parte do Governo e da oposição.

Nesta primeira sessão foram igualmente ouvidos dois inspetores da PJ sobre as diligências que foram feitas na ocasião, mas estes declararam que já não tinham bem a certeza dos factos, uma vez que já passaram quase seis anos dos incidentes.

A próxima sessão deste julgamento está marcado para o dia 09 de abril, pelas 14:00.