A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) considerou hoje ser «especulativo e despropositado imputar qualquer tipo de responsabilidades» aos bombeiros, como referem dados preliminares divulgados na imprensa que apontam falha humana nas mortes ocorridas nos incêndios de verão.

Alguns órgãos de comunicação social divulgaram dados preliminares de um inquérito aos fogos pedido pelo Governo, segundo os quais os bombeiros negligenciaram a forma de atuação, ao violarem regras de segurança, em sete dos oito casos mortais nos incêndios ocorridos no verão.

Segundo a imprensa, houve erros de manobra, mau posicionamento no terreno e ainda erros na abordagem aos sinistros.

Em comunicado, a ANPC esclarece que, «até ao momento, apenas foi entregue um relatório preliminar, esperando-se nos próximos dias a receção do relatório final».

Segundo a ANPC, estão a ser analisadas «cada uma das ocorrências a onde ocorreram vítimas mortais entre os soldados da paz», em complemento do relatório sobre os acidentes com vítimas mortais no contexto de incêndios florestais deste ano.

«Face a este quadro, que é factual, é absolutamente especulativo e é absolutamente especulativo e despropositado imputar qualquer tipo de responsabilidades», sublinha a ANPC no comunicado.

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses manifestou-se «magoado» e «revoltado» com a divulgação de «excertos de um relatório preliminar sem [antes] se reunirem com as pessoas a quem, em primeiro lugar», deviam ter sido apresentados os dados para poderem ser analisados e confrontados.

«As pessoas têm de saber que não há ciências exatas», disse Jaime Soares, comentando: «Não posso deixar de estar revoltado, pelo menos saibam respeitar a memória daqueles que morreram ao serviço da pátria».

Ressalvou que que não pretende «escamotear, esconder o que quer que seja» e que os bombeiros apenas querem «saber a verdade» e serem respeitados na sua «função de alto perigo para defender os portugueses».

«Os bombeiros, como seres humanos, são falíveis e podem errar, mas uma coisa que eu exijo veemente é que há que provar que eles erraram» e «não são os excertos de um relatório preliminar que podem garantir uma coisa dessas».

Jaime Soares considerou esta situação de uma «falta de ética inimaginável» em relação a «situações tão sensíveis» e diferentes: «cada caso é um caso, não há nenhum fogo igual».

«Há pessoas que pensam que são os «sabe tud»¿ e que se atrevem a dizer que são cientistas ou pseudocientistas, mas nunca os vi numa frente de fogo, num combate a um incêndio. Ali é que se aprende, não é num laboratório com umas ventoinhas a fazer vento para cima de uns painéis com folhas de eucalipto», comentou.

Também o presidente da Associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários lamentou ter conhecimento destes dados pela comunicação social.

«Deveria ter havido outra abordagem e a apresentação às organizações que estão diretamente ligadas aos bombeiros», disse Rui Moreira da Silva.

A associação «não irá admitir nunca que seja imputado aos bombeiros que morreram e à estrutura bombeiros as culpas por aquilo que aconteceu», frisou.

Desde o início que a associação disse que se «cometeram erros básicos nestes teatros de operações mas nunca ao nível dos bombeiros».

«Vamos aguardar serenamente que este relatório seja do nosso conhecimento, vamos estudá-lo», mas é «ponto assente» que a associação fará tudo para que «não seja imputada a culpa a estes bombeiros pela sua morte».

Estes bombeiros «fizeram para cumprir o seu dever, que é função do Estado. Parece-nos aqui que há uma tentativa de sacudir a água do capote e culpar o elo mais fraco», frisou.

A Lusa contactou o autor do estudo, o professor da Universidade de Coimbra Xavier Viegas, mas até ao momento não conseguiu obter resposta.