A coordenadora do observatório de saúde traçou esta segunda-feira o retrato de um sistema de saúde degradado, para o qual o Governo se recusa a olhar, e alertou para a necessidade de estratégias que atendam às reais necessidades das pessoas.

Os comentários foram feitos durante, e à margem, da apresentação do Relatório de Primavera 2014, intitulado «Saúde ¿ Síndroma de Negação», precisamente porque o Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) considera que o Governo se encontra em silêncio e em negação face ao impacto negativo da crise na saúde dos portugueses.

Sintoma disso é o facto de ainda não ter elaborado qualquer estudo sobre esse impacto, não obstante o OPSS alertar sistematicamente ao longo dos últimos cinco anos para esta realidade.

«Já no ano passado o relatório mostrava as duas faces da saúde - a oficial (dos poderes) e a da experiência real das pessoas ¿ e todas as coisas que dissemos na altura se mantiveram», criticou Ana Escoval, acrescentando que se mantém a ausência de um diagnóstico oficial rigoroso sobre o tema.

A responsável sublinha mesmo que os dados disponíveis, tanto nacionais como da União Europeia, «dão solidez ao que o observatório diz há cinco anos: a crise tem impacto sobre as pessoas».

«Isto é recessão. As pessoas perdem o emprego, emigram, ficam sozinhas sem capacidade financeira. Temos que encontrar formas de chegar às pessoas, avaliar, monitorizar e, sobretudo, antecipar», considerou.

O próprio Plano Nacional de Saúde, publicado na sexta-feira passada, contém dados «preocupantes», que devem ser olhados com cautela e suscitar questões, como, por exemplo, «as profundas assimetrias regionais», nos acessos aos cuidados de saúde que revelam.

As próprias metas do plano não são exequíveis e comprometem uma ação eficaz, numa altura em que «é necessário operacionalizar estratégias locais que atendam às reais necessidades da população e é preocupante que as metas estabelecidas não sejam plausíveis».

«A plausibilidade das metas é desastrosa. Há metas para 2016, algumas das quais vão ser ultrapassadas e outras estão muito distantes», afirmou.

Ana Escoval considera que o Plano Nacional de Saúde se deveria dividir «em tantos planos regionais, quantos os necessários para mapear as necessidades das pessoas».

Durante um debate que se seguiu à apresentação do relatório, as dificuldades de acesso das pessoas aos cuidados de saúde, por vezes agravadas em função da distribuição geográfica, foi um dos temas dominantes.

Um dos intervenientes, o médico psiquiatra José Fidalgo Freitas, afirmou mesmo que «as assimetrias são antidemocráticas e imorais».

Na sessão de encerramento, a presidente da comissão parlamentar de saúde considerou que o título do relatório é «bastante apropriado», porque não se conhece o verdadeiro impacto da crise na saúde dos portugueses, embora se saiba que «o acesso tem sofrido um retrocesso».

«Não há estudos, mas a evidência bate-nos à porta. Na comissão parlamentar de Saúde, várias associações de doentes têm feito chegar testemunhos muito preocupantes», revelou Maria Antónia Almeida Santos.

Questionada sobre a ausência do ministro da Saúde, pelo segundo ano consecutivo, da apresentação oficial do relatório, Ana Escoval disse querer acreditar que tal se deve a «uma agenda ocupadíssima [do ministro] com todas estas questões, importantes para a saúde das pessoas».