Viticultores protestaram hoje, na Régua, contra a «privatização »que vai levar «à extinção» da Casa do Douro (CD), reivindicando mais competências para o organismo que dizem ser o defensor dos pequenos e médios produtores da região demarcada.

Os sinos instalados num trator encabeçavam o protesto que juntou alguns veículos, agrícolas, automóveis, carrinhas e viticultores que seguiam a pé, empunhando cartazes onde se podia ler «O Governo e as exportadoras estão a matar a CD», «Não ao roubo do nosso património» ou a «A CD é nossa».

Esta foi mesmo a frase que mais se ouviu esta manhã nas ruas da Régua. Os manifestaram acabaram por se concentrar em frente à sede da instituição duriense, onde se juntaram também alguns autarcas da mais antiga região demarcada do mundo, bem como funcionários da CD que possuem vários meses de salários em atraso.

«Sem CD não há lei. As grandes casas exportadoras pagam-nos as uvas e o vinho pelo preço que querem», afirmou Margarida Mendes, agricultores da Galafura.

Margarida veio até à Régua acompanhada por mais três primas. Todas elas viticultoras, todas elas com as mãos manchadas pelo trabalho na vinha e descontentes com a quebra de rendimentos que dizem ter sentido nos últimos anos.

Maria Gonçalves Lebres disse que já vendeu o «vinho tratado» por 1.150 euros a pipa e que, este ano, o preço baixou para os 800 euros.

«Estamos a perder dinheiro todos os anos. O que recebemos já não chega para pagar o que gastamos na vinha», frisou.

Esta produtora disse ter vindo à manifestação de hoje para zelar pelos interesses dos lavradores e pela manutenção de uma CD pública e ao serviço dos pequenos e médios viticultores da região.

Mas Maria Gonçalves Lebres vai mais longe e diz que, dentro da CD, é também preciso fazer mudanças e, por isso, defendeu a realização «em breve de eleições» nesta instituição, que é presidida por Manuel António Santos.

Outra prima, Maria Augusta Lebres, garante que a CD ainda se justifica, embora admita que praticamente já não tem poderes e que raramente entre lá para resolver problemas relacionados com a vinha.

António Pinto, que segurava ao peito um cartaz onde se lia «A CD é nossa», quer que a instituição volte a ter as competências de antigamente, em que regulava os preços dos vinhos e retirava o vinho excedente aos produtores.

Os viticultores dizem «não» à alteração estatutária proposta pelo Governo, que extingue o atual estatuto de associação pública e de inscrição obrigatória e cria uma associação de direito privado. Esta alteração legislativa vai ser votada a 10 de julho na Assembleia da República.

O plano governamental para resolver o problema da dívida de 160 milhões de euros da CD inclui ainda um acordo de dação em cumprimento, através do qual o Estado aceita o pagamento da dívida de 160 milhões de euros através da entrega de vinho por parte da organização.

O social-democrata Nuno Gonçalves, presidente da Câmara da Régua, fez questão de se juntar à manifestação para demonstrar a sua «absoluta solidariedade» com os viticultores.

Para o autarca, «é inadmissível» que se esteja a juntar o problema da dívida da CD com a alteração legislativa, considerando que a proposta do Governo ¿é muito negativa¿ para o Douro e os lavradores durienses.

Por sua vez, Alberto Pereira, presidente da Câmara de Mesão Frio (PS), salientou que é obrigação dos autarcas estar hoje «ao lado dos agricultores» e referiu que a instituição duriense «tem que ter saúde e estar bem organizada» para desempenhar o papel de defesa da lavoura.

Os viticultores garantem ainda que, a 10 de julho, vão, de novo, marcar presença em Lisboa para defender a CD.