Quase um quarto dos mais de mil condutores portugueses inquiridos num estudo admitiram ter adormecido ao volante nos últimos dois anos, segundo dados que são hoje divulgados.

Trata-se de um inquérito europeu online realizado entre 15 de julho e 6 de setembro de 2013 pelo European Sleep Research Society a 12.783 condutores de 19 países europeus.

No universo nacional, o «Wake-up Sleep Study» revelou que 23% dos 1.093 condutores portugueses inquiridos referiram ter adormecido pelo menos uma vez nos últimos dois anos e, destes, quase 8% reportaram ter tido um acidente de viação como consequência do adormecimento.

Para a coordenadora do estudo, estes números são elevados mas não surpreendentes, uma vez que quem estuda este fenómeno tem noção do número de acidentes que acontecem por sonolência ao volante.

«Cerca de 20% dos acidentes estão relacionados com sonolência, mas é importante para pessoas que lidam com isto, seja o público em geral, sejam os políticos, perceberem que as estatísticas oficiais são muito menores», afirmou à Lusa Marta Gonçalves.

Uma das principais dificuldades em aferir o número de acidentes por sonolência tem a ver, por um lado, com o facto de não ser possível medir o sono do condutor, como se mede o excesso de álcool ou o excesso de velocidade, e por outro lado, com a elevada mortalidade associada a este tipo de acidentes, que não permite concluir com certeza que foi o adormecimento ao volante a causa do acidente, explicou.

A alta mortalidade explica-se porque «os condutores não têm qualquer defesa, batem seja a que velocidade forem», especificou, sublinhando que muitas vezes existe a associação do sono com o álcool, que «multiplica» a sonolência, sendo que nestes casos apenas o álcool é medido.

Outro fator importante é a «privação do sono», que se verifica muito entre os jovens que vão sair à noite e voltam para casa de madrugada ou condutores que fazem longas viagens durante a noite.

Os conselhos que a responsável deixa aos condutores é sobretudo que não tentem resistir ao sono, porque não conseguem.

«As pessoas acham sempre que aguentam mais um pouco, que estão quase a chegar a casa, e não é por acaso que muitos acidentes se dão perto de casa. Depois de a sonolência se instalar, a passagem para o sono é muito súbita e não é possível controlar», afirmou.

Nestes casos, o condutor «deve parar num sítio seguro, dormir 15 a 20 minutos, não mais, tomar um ou dois cafés e seguir viagem».

«Se quiser tomar café antes e depois dormir, não tem problema, porque a cafeína demora cerca de 30 minutos a aturar», acrescentou.

Este estudo revela também que os indivíduos que conduziram maiores distâncias no ano anterior (mais de 20.000 km) apresentaram maior risco de adormecer ao volante, e esse risco foi 3 vezes maior nas pessoas com probabilidade elevada de apneia obstrutiva do sono.

Com o objetivo de alertar para os perigos de conduzir com sono, arranca hoje uma campanha de sensibilização para estes perigos, com várias ações de rua em Lisboa e no Porto.

Na sexta-feira, a campanha avança pela Europa a bordo de um autocarro ¿ o «Wake-up Bus» ¿ que vai parar em 11 cidades europeias, onde vão decorrer igualmente ações de sensibilização.

Marta Gonçalves destaca que a campanha termina em Bruxelas, no Parlamento Europeu, onde vão ser apresentados os resultados do inquérito a nível europeu, com estudos comparativos entre os vários países.