Um militar da GNR na reforma admitiu, esta quinta-feira, no tribunal de Sintra, que disparou na direção de um jovem de 23 anos, durante uma discussão por causa de um cão, mas negou intenção de matar.

O guarda na reforma, agora com 53 anos, encontra-se em prisão preventiva desde que foi detido pela PSP, em Queluz, acusado da morte de Caio Carvalho, 23 anos.

Perante o coletivo de juízes e os jurados do Juízo de Grande Instância Criminal, o arguido ouviu na primeira audiência ser-lhe imputado pelo Ministério Público um crime de homicídio qualificado, punível com prisão de 12 a 25 anos.

Segundo um resumo da acusação, efetuado pela juíza-presidente, na tarde de 11 de janeiro de 2013 o arguido passeava pela trela um cão quando se aproximou dele um pitbull, junto à garagem de lavagem de carros onde Caio trabalhava. Na sequência da troca de palavras e de ameaças, o militar disparou quatro tiros de aviso para o ar e para os pés da vítima, antes de lhe desferir um disparo fatal «na zona torácica».

«O que está aqui em causa é grave, é uma tragédia humana», reconheceu o advogado de defesa, embora apelando para se «fazer um esforço para perceber o que é que conduziu» ao trágico desfecho. «Ó meu, o que é que tu queres? Levas já com um murro pelos cornos abaixo», contou o arguido, sobre a forma como a vítima se lhe dirigiu, na discussão após o encontro dos cães.

Caio, segundo o ex-GNR, terá ido à garagem buscar «um tubo ou um ferro» e avançou na sua direção. «Dei-lhe voz de ¿alto' e ele não cumpriu», disse. E assumiu: «Dei três tiros para o ar e um para as pernas. A minha intenção não era matá-lo».

O arguido argumentou que possuía duas armas, mas que foi a primeira vez que disparou com o revólver. Às dúvidas da juíza sobre se tinha a noção de ter acertado no jovem, respondeu que não: «A minha preocupação naquele momento era o meu animal».

Inquirido acerca do motivo de ir passear o cão com um revólver de calibre 1.32, com seis balas no tambor, e mais 18 munições numa bolsa, justificou com o facto de ter visto a sua residência assaltada e porque «andava a ser seguido».

Os juízes insistiram na direção em que apontou a arma, mas o militar apenas concedeu ter disparado «na diagonal». Quanto à depressão que o levou a tomar medicamentos, garantiu: «Maluco não sou».

Os depoimentos das duas testemunhas que se encontravam na garagem - Tiago, colega, e Cátia, namorada de Caio - divergiram quanto à distância a que decorreu a discussão e os disparos. Também não coincidiram quanto ao facto da vítima se ter dirigido para o agressor com uma escova com cabo de madeira numa mão. No entanto, Caio não se terá intimidado por julgar tratar-se de «uma arma de alarme».

A advogada da assistente - a mãe da vítima e o seu filho de um ano - inquiriu depois os bombeiros e o médico do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), que nada puderam fazer para reverter a «paragem cardiorrespiratória» de Caio. Uma tia da vítima e uma amiga da mãe atestaram as dificuldades económicas e o impacto que a morte do jovem provocou no agregado familiar.