A tinta das tatuagens tem partículas microscópicas que podem ir parar aos gânglios linfáticos, órgãos muito importantes para o sistema imunitário. O alerta surge num novo estudo, realizado por investigadores do Instituto Federal Alemão de Avaliação de Riscos e do Laboratório Europeu de Radiação Synchotron, situado em Grenoble, França, e que foi publicado na revista Nature. É o primeiro a mostrar as "evidências fortes" tanto no que toca à infiltração dos pigmentos na pele, como no depósito a longo prazo de elementos tóxicos no corpo.

São vários os pigmentos orgânicos e inorgânicos presentes na tinta das tatuagens. As partículas são minúsculas, mas incluem conservantes e contaminantes como o níquel, o cromo, o manganês e o cobalto. Ou seja, o corpo pode ficar contaminado com impurezas tóxicas. 

"Já sabíamos que os pigmentos das tatuagens chegavam aos nódulos linfáticos por causa das evidências visuais: os nódulos ficam marcados com as cores das tatuagens. Esta é a resposta do corpo à limpeza do local da tatuagem. Mas o que não sabíamos é que estes pigmentos viajam de forma nanométrica, o que implica que talvez não tenham o mesmo comportamento de partículas no nível micrométrico. E isso é um problema: não sabemos como estas partículas agem", adverte Bernhard Hesse, cientista daquele instituto e coautor do estudo.

Há precisamente um ano, a Comissão Europeia alertou, com base num estudo que encomendou à Joint Research Centre para o perigo das tintas das tatuagens, que podem conter pigmentos cancerígenos. É que 80% dos pigmentos utilizados hoje em dia são orgânicos e 60% deles são pigmentos azo. Exposto ao sol, pode degradar-se e libertar aminas aromáticas que podem ser cancerígenas.  

Além do carvão preto, há um segundo componente habitualmente usado em tatuagens: o dióxido de titânio. Trata-se de um pigmento branco que integra produtos como aditivos alimentares, protetores solares e, lá está, tintas. 

"O depósito de partículas leva ao aumento crónico do nódulo linfático e exposição ao longo da vida", lê-se no estudo alemão agora publicado. Um problema para se conseguir diagnosticar cancro, por exemplo, nos exames realizados para o efeito. Mais ainda se a pessoa em causa tiver várias tatuagens.

Outra consequência é a probabilidade de alterações biomoleculares prejudiciais, associadas a inflamações cutâneas e outros efeitos adversos provocados pela realização de uma tatuagem. 

Hiram Castillo, autor do estudo, explica que quem se quer tatuar deve ter em atenção duas coisas:

"Quando uma pessoa quer fazer uma tatuagem, costuma ser muito cuidadosa ao escolher um estúdio onde se usem agulhas descartáveis novas, mas ninguém se preocupa em verificar a composição das cores. O nosso estudo mostra que talvez isso também deva ser feito".

Como método, foram utilizadas medições de fluorescência de raios-X para identificar partículas na pele e nódulos linfáticos localizados no pescoço, nos braços e ao longo do corpo e abdómen. A investigação também recorreu a uma tecnologia com infravermelhos para avaliar mudanças nos tecidos ao nível molecular. 

A investigação vai continuar. Os cientistas querem analisar mais pacientes com problemas de inflamações suscitadas por tatuagens para tentar encontrar uma ligação entre as características químicas e estruturais dos pigmentos e os materiais das tintas.

Portugal ainda não tem qualquer legislação específica relativamente aos produtos químicos em tatuagens. Há cada vez mais pessoas que aderem a esta tendência. Estatísticas de 2016 indicavam que pelo menos 60 milhões de europeus tinham tatuagens, um aumento de 7% desde 2003.