O padrasto do jovem agredido em Ponte de Sor por dois iraquianos admitiu esta segunda-feira à agência Lusa que pode haver uma “terceira pessoa” envolvida na agressão, que terá sido “já interrogada” pelas autoridades.

“Há quem diga que estava um a gravar tudo [agressão], porque eles são três. Sei que já foi interrogado e ouvi dizer que já esteve na Polícia Judiciária (PJ), agora quem é não sei”, disse Marco Silva.

Em declarações à TVI, Marco Silva falou sobre a entrevista dada pelos jovens iraquianos e sublinhou que "não houve legítima defesa nenhuma". Mais, disse que a violência das agressões "era para matar". "A forma como eles bateram era para matar", frisou.

"Não há legítima defesa em nada. Ele era um, eles eram dois. Ao primeiro pontapé ou ao segundo o Rúben ficou inconsciente. Continuaram e a partir daí era para matar."

À Lusa, Marco Silva afirmou que os dois irmãos “não estão arrependidos” do suposto ato que cometeram e que as declarações que fizeram são uma forma de prepararem a sua defesa.

“Eles ao não ligarem para a família [do Rúben] é porque não estão arrependidos do que fizeram. Eles [na entrevista à SIC] estão é a defender-se, a preparar a defesa deles, que é absurda. Ninguém por levar quatro ou cinco murros vai saltar a pés juntos para a cabeça de outro, com intenção de o matar”, afirmou.

Marco Silva acrescentou que os supostos agressores “dizem que estão à espera que o Rúben recupere, mas ainda nenhum deles, nem do nosso Governo”, ligou para a família.

“É isto que eu não percebo, com tanto aparato e não houve ninguém, nem de embaixadas, nem do Governo, que ligasse. O único foi o Presidente da República, que ligou para o hospital”, lamentou.

Na última quarta-feira, Rúben Cavaco, 15 anos, foi agredido em Ponte de Sor, no distrito de Portalegre, alegadamente pelos filhos do embaixador do Iraque em Portugal, gémeos de 17 anos.

O jovem alentejano sofreu múltiplas fraturas, tendo sido transferido no mesmo dia do centro de saúde local para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Santana-Maia Leonardo, advogado de Rúben Cavaco, disse à agência Lusa que o jovem saiu esta terça-feira de manhã dos cuidados intensivos e que terá agora de ser submetido a uma "avaliação neurológica".

Os dois rapazes suspeitos da agressão são filhos do embaixador iraquiano, Saad Mohammed, e têm imunidade diplomática.

O padrasto disse à TVI que o jovem está numa situação estável, mas ainda em estado crítico.

"Não sabemos como serão as próximas horas e os próximos dias. Qualquer coisa pode acontecer", vincou.

Os gémeos iraquianos afirmaram na segunda-feira, em entrevista à SIC, que colaboraram com a polícia sem terem invocado imunidade diplomática e que permanecerão em Portugal até à resolução da questão.

“Não diria que estamos acima da lei, porque respeitamos todos os procedimentos policiais, ainda que não o tivéssemos de fazer, poderíamos ter invocado imunidade diplomática e não teríamos de responder a qualquer interrogatório ou investigação”, sublinhou um dos filhos do embaixador iraquiano.

Na segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, admitiu pedir ao Iraque que renuncie à imunidade diplomática dos filhos do embaixador iraquiano em Portugal, se essa diligência for solicitada pela justiça.

O embaixador do Iraque em Lisboa foi entretanto convocado a Bagdad, pelo Ministério iraquiano dos Negócios Estrangeiros, avançou hoje a imprensa do seu país.

O advogado de Rúben Cavaco disse esta terça-feira à Lusa que já pediu a consulta do processo e manifestou a intenção de colaborar com o Ministério Público (MP).

Santana-Maia Leonardo admitiu desconhecer se os dois suspeitos da agressão a Rúben Cavaco invocaram ou não imunidade diplomática quando foram levados para serem ouvidos e identificados pela GNR.

O advogado afastou para já a possibilidade de apresentar qualquer acusação particular contra os autores, por considerar que se trata de um "crime público" e, como tal, compete ao MP avançar com o caso.

Todavia, manifestou a intenção de colaborar com o MP, na descoberta da verdade dos factos.

"Já pedi a consulta do processo", sublinhou Santana-Maia Leonardo à agência Lusa, precisando que aquele "não está parado", mas observando que a "justiça é mais lenta do que a comunicação social".