Não há razões para alarme, mas sim razões para estarmos atentos. Foi esta a mensagem que o professor de medicina da Universidade de Lisboa, Miguel Castanho, quis passar esta quinta-feira no Diário da Manhã da TVI, sobre o risco de contágio do vírus ébola, em Portugal. «O medo é um péssimo conselheiro. Estamos longe de uma situação de descontrolo».

«É fundamental manter a calma, porque os factos também não justificam o pânico, o medo», começou por dizer o professor, entrevistado pela jornalista Patrícia Matos. Mesmo com a proximidade com Espanha, onde há um caso confirmado, e seis pessoas em observação? Mesmo assim, «não justifica de todo» o pânico.

Miguel Castanho explicou que o vírus pode ser altamente mortal num determinado contexto. «É preciso desmistificar isto. Sem assistência médica, o vírus é muito mortal» e é o que se tem verificado em países africanos, onde o sistema de assistência médica é mais frágil.

Ainda assim, houve já um homem que viajou da Libéria para os EUA e morreu em território norte-americano, onde estava a ser tratado. O professor realçou, no entanto, que o contágio foi feito ainda em solo africano. «O vírus vive num determinado ecossistema ótimo. Não afeta só humanos, mas também animais. Essas espécies estão em alguns países africanos, mas não europeus. A instalação do vírus em determinadas áreas geográficas é mais propícia nuns casos do que noutros», esclareceu.

Quanto a Espanha, país vizinho de Portugal e onde há um caso detetado, de uma auxiliar de enfermagem, não existe diferença de ecossistema. «O que quero dizer é que o facto de o vírus ser importado, eventualmente contaminar algumas pessoas nesses países [como Espanha], não quer dizer que haja condições para que se instale um surto permanente e prolongado do vírus, porque o vírus tem um determinado ciclo na natureza. Obviamente algumas regiões geográficas são mais propícias». A Europa não é uma delas.

O professor decompôs o ecossistema de que falou, dando exemplos: «O vírus em África existe em humanos, em gorilas, em morcegos, provavelmente noutras espécies animais e é a interação entre estas várias espécies que constitui o habitat do vírus». O vírus nunca infetou cães, esclareceu hoje o diretor-geral da Saúde, Francisco George. 

Não se pode dizer que Portugal esteja efetivamente na rota da infeção. «Está tão exposto como outro país qualquer. Mas não está exposto pela importação do vírus, neste momento. Não há nada que permita neste momento dizer que em Portugal estejamos em maior risco do que qualquer outro país europeu», insistiu.

«Se o problema é um descontrolo em Espanha que se espalhe em Portugal, pela proximidade geográfica, se houver esse descontrolo obviamente haverá um risco acrescido em Portugal. Mas não estamos perto de um descontrolo em Espanha. Houve um caso. Poderão surgir mais de contacto direto. Houve algum descuido, aparentemente, naquele doente [o caso da auxiliar de enfermagem, sendo que o médico que a tratou já teceu inúmeras críticas ao protocolo de controlo e ele próprio teve de mudar de fato 13 vezes durante as 16 horas em que a assistiu, estando também ele internado, sob vigilância]. Não estamos perante um caso generalizado. O medo é um péssimo conselheiro».

Uma certeza é que «obviamente e autoridades de saúde estão atentas». O ministro da Saúde já tinha ontem, de resto, deixado a garantia de que Portugal poderá ter acesso ao soro experimental, em caso de necessidade

Miguel Castanho explicou que o soro já estava a ser testado antes, clinicamente. O que acontece é que «enquanto os casos não são graves, os novos medicamentos têm de passar por uma série de testes».

Poder-se-á confiar em bons resultados? «Pode ser usado em humanos, com muito bons resultados em alguns pacientes e noutros não tão bons ou ineficazes», como foi o que se verificou no homem liberiano infetado com o vírus e que acabou por morrer nos EUA.  «Na dúvida, e desde que pacientes não têm outra hipótese, o risco do medicamento experimental é aceitável. É inferior ao risco da doença em si», defendeu.

O soro poderá ser útil tanto no combate ao ébola, como para outras doenças, porque «utiliza anticorpos, uma tecnologia batante moderna que se espera que dê muitos frutos no combate a várias doenças no futuro (contra tumores, contra o cancro, por exemplo). Do ponto de vista de ataque às doenças, por vezes há elementos comuns» entre elas, realçou.

Tal como o vírus da gripe, que não foi anulado, mas sim controlado, neste caso pode vir a acontecer o mesmo. «Não quer dizer que exista um tratamento 100% eficaz. Nós próprios esquecemos que controlámos a gripe, mas não a eliminámos. Aprendemos a viver com o vírus».