O GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos denunciou, esta quinta-feira, que 9.000 doentes diagnosticados com VIH não estão a ser seguidos nos hospitais e desconhece-se o seu paradeiro. Ou seja, não constam do sistema e a falta de acompanhamento pode pôr em causa o controlo da epidemia.

“O secretário de Estado Adjunto e da Saúde fez um despacho para perceber porque é que estão no registo nacional de pessoas diagnosticadas mais de 42 mil pessoas vivas e os hospitais reportam que só têm em seguimento 33 mil pessoas”, disse Luís Mendão à Lusa, a propósito Dia Mundial da Luta Contra a Sida, que se assinala no sábado.

[9.000 pessoas] é um número brutal que compromete qualquer tentativa de controlo da epidemia se não se encontrar os que estiverem vivos e em Portugal e os trouxermos ao tratamento. [É preciso saber] para onde foram, onde estão, se morreram, se emigraram, se estão simplesmente perdidos para seguimento, se abandonaram o tratamento e o seguimento hospitalar”.

O Ministério da Saúde revelou, entretanto, que da lista de doentes com VIH notificados e ausentes do acompanhamento do Serviço Nacional de Saúde, há mais de um ano, já foram identificados 2.250, correspondente a 25%.

Dos 2.250 doentes identificados, de um universo de nove mil diagnosticados com VIH e que não estão a ser seguidos nos hospitais, desconhece-se o seu paradeiro e cerca de metade já morreram. “Apenas 4% abandonaram a consulta”, acrescenta a tutela.

Há ainda “um valor considerável que corresponde a erros de notificação, duplicações de registos (nomeadamente inter-hospitais) e a transferências entre serviços”.

Num despacho publicado no Diário da República no passado dia 25 setembro, Fernando Araújo determina a implementação, até 31 de dezembro, do sistema informático do VIH em todos os estabelecimentos hospitalares do Serviço Nacional de Saúde que seguem pessoas infetadas com o vírus da imunodeficiência humana.

Existe um conjunto de doentes que, estando diagnosticados e tendo os casos sido notificados, não há evidência de se encontraram em seguimento nas diferentes instituições hospitalares. [É necessário] um esforço na melhoria da qualidade da informação que assegura a fiabilidade e rastreabilidade dos dados”.

Para o GAT, é preciso fazer “um investimento sério” nos sistemas de informação e na monitorização da qualidade e na capacidade dos vários sistemas informáticos e bases de dados poderem comunicar uns com os outros, “garantindo o anonimato e a confidencialidade dos dados individuais de saúde”.

“Portugal é o país que mais gasta em medicamentos por milhão de habitantes em VIH, portanto, é urgente que tenha informação absolutamente credível e correta de modo a poder definir políticas” de saúde, vincou.

Por melhores que sejam as intenções, “não é possível responder a uma epidemia sem a conhecer”, mas também é necessário perceber onde se está a falhar e como se pode melhorar para pôr fim à epidemia do VIH e à epidemia da sida.

Segundo o relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças e da Organização Mundial da Saúde para a Europa, Portugal registou até hoje 56.001 diagnósticos de infeção VIH, 1.030 dos quais em 2016.

Tendência decrescente em novos casos

Portugal mantém a tendência decrescente no número anual de novos diagnósticos de infeção por VIH e sida, registando, em 2016, 1030 novos casos de infeção, anunciou o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA).

O INSA publicou hoje o Relatório Infeção VIH e SIDA – Situação em Portugal em 2016, elaborado pela Unidade de Referência e Vigilância Epidemiológica do seu Departamento de Doenças Infecciosas, em colaboração com o Programa Nacional da Infeção VIH, sida e Tuberculose da Direção-Geral da Saúde.

O relatório reúne informação epidemiológica que caracteriza a situação em Portugal a 31 de dezembro de 2016, obtida a partir das notificações de casos de infeção por VIH e sida que o INSA recebe, colige e analisa desde 1985.

“Os dados da vigilância epidemiológica referente à infeção por VIH e sida apresentados neste relatório revelam que Portugal mantém a tendência decrescente no número anual de novos diagnósticos de infeção por VIH e sida, observada desde o ano 2000, embora as taxas apuradas para os anos mais recentes continuem a ser das mais elevadas na União Europeia”, indica o relatório.

O documento salienta que se encontram registados cumulativamente, até 30 de junho de 2017, 56.001 casos de infeção por VIH, dos quais 21.614 são casos de sida, em que o diagnóstico aconteceu até final do ano passado.

“Segundo a informação epidemiológica obtida a partir das notificações de casos de infeção, em 2016 foram diagnosticados 1030 novos casos de infeção por VIH em Portugal”, acrescenta.

Helena Cortes Martins, responsável pela vigilância da infeção por VIH e sida no Departamento de Doenças Infecciosas do INSA, destaca o “predomínio de casos do sexo masculino, com idades inferiores às observadas nos casos em mulheres”.

“A taxa mais elevada de novos diagnósticos (26,1 por 100 mil habitantes) é observada no grupo etário 25-29 anos, apesar do maior número de novos casos se ter verificado no grupo 30-39 anos”, explicou.

A especialista destacou ainda que os novos casos referentes a homens que têm sexo com homens “foram, nos dois últimos anos, a maioria dos casos do sexo masculino, bem como dos novos diagnósticos em pessoas com menos de 30 anos”.

Helena Cortes Martins, autora do relatório, salienta também percentagem de diagnósticos tardios, particularmente em casos de transmissão heterossexual.

“Em mais de metade dos novos casos (55%) de 2016 o diagnóstico foi tardio, proporção que foi mais elevada (64%) nos casos em que a transmissão ocorreu por contacto heterossexual”, explica.

A especialista disse ainda que estão em curso importantes iniciativas a nível nacional no âmbito da prevenção da infeção por VIH, do acesso atempado ao diagnóstico da infeção e da melhoria da informação epidemiológica nacional

“A informação epidemiológica de qualidade e atempada é essencial para a monitorização dos objetivos 90-90-90 e, nesse sentido, está a decorrer um processo de recolha de informação em falta e de melhoria das aplicações informáticas de suporte, que se espera vir a ter impacto significativo na rapidez da obtenção da informação epidemiológica nacional, na completude dos dados e, naturalmente, na qualidade dos mesmos”, concluiu.