Quase um quarto das pessoas infetadas com VIH inquiridas num estudo disseram ter sido excluídas da família e metade dos participantes foi forçada a mudar de casa e perdeu uma oportunidade de trabalho por «viver com vírus».

O «Stigma Index Portugal», que analisa pela primeira vez o estigma que existe no país relativamente às pessoas infetadas com VIH, inquiriu 1.474 pessoas com VIH de vários grupos vulneráveis.

«O objetivo do estudo foi identificar e caracterizar uma situação que todos falamos como prioritária para resolver, mas que não conhecíamos os seus contornos, consequências e causas em Portugal, que é a discriminação pelo facto de se viver com VIH/Sida», disse esta quinta-feira à agência Lusa o coordenador do estudo e diretor do Centro Anti-Discriminação, Pedro Silvério Marques.

Questionados sobre os tipos de exclusão que sofreram, 24,7% dos inquiridos disseram ter sido afastados de «atividades com familiares», 23,3% de «atividades religiosas ou dos lugares de culto» e 20,1% de «encontros ou atividades sociais».

Para Pedro Silvério Marques, é «muito chocante ver que o principal meio de exclusão [destas pessoas] é o ambiente familiar, mais do que os ambientes sociais».

Sobre as consequências da discriminação nos últimos 12 meses, 25% dos participantes foram forçados a mudar o local de residência ou impedidos de arrendar casa e 25% foi-lhes recusado ou negado uma oportunidade de trabalho.

O estudo, que é apresentado hoje na III Conferência VIH Portugal, indica que foi negado a 22,9% dos inquiridos a prestação de cuidados de saúde, como tratamento dos dentes, enquanto a 14,4% mudaram-lhe as tarefas no trabalho.

Já 5,7% dos inquiridos disseram que lhes recusaram o atendimento no planeamento familiar, 3,4% contaram que lhe foi negado um serviço na área da saúde sexual e reprodutiva e 0,5 contaram que os filhos foram despedidos, suspensos ou proibidos de frequentar uma instituição de ensino.

Sobre a situação laboral, a maioria dos inquiridos (608) está desempregada, 318 estão empregados a tempo inteiro por conta de outrem, 233 estão reformados, 175 fazem «biscates ou trabalhos precários por conta própria», 58 são empregados a tempo inteiro por conta própria, 52 empregado e part-time por conta de outrem e 30 são estudantes.

Nos últimos 12 anos foram registadas perto de 2.000 situações de discriminação, a maior parte (cerca de 700) por falarem mal da pessoa infetada VIH, seguindo-se o insulto (cerca de 400), as ameaças (cerca de 300) e as agressões físicas (cerca de 200).

O coordenador do estudo apontou que os grupos em que existe uma maior incidência de situações de discriminação são os utilizadores de droga injetável e os imigrantes ilegais.

Salientou ainda a importância deste estudo para saber a realidade portuguesa sobre esta situação: «Apesar de ser prioritário, não havia ação nenhuma no sentido de combater o estigma e a discriminação. Só palavras.»

Os dados servirão para «direcionar as ações e os esforços, quer na formação das pessoas na área da ética dos direitos dos cidadãos, quer para criar condições e ultrapassar os obstáculos que, neste momento, existem para que não haja situações de estigma e discriminação», frisou.

O estudo é um projeto internacional e em Portugal foi coordenado pelo Centro Anti Discriminação, com a SER+ e o GAT, tendo sido financiado pelo Programa ADIS/SIDA.

Os locais de entrevistas foram os hospitais e centros hospitalares de Lisboa, Porto, Setúbal e Faro, os distritos em que a prevalência dos casos notificados até 31 de dezembro de 2011 era superior a 5%.