Os trabalhadores da limpeza urbana, em Lisboa, são as pessoas mais expostas ao risco decorrente da greve dos funcionários do município agendada para quinta-feira, pois têm de recolher os resíduos após a paralisação, alertaram os médicos de saúde pública.

«As pessoas mais expostas ao risco são os próprios trabalhadores, que uma vez terminada a greve vão ter de manipular o lixo e recomenda-se que tenham cuidado», disse à agência Lusa o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), Mário Jorge Santos.

A paralisação de quinta-feira, dia dos Casamentos do Santo António e das Marchas Populares e na véspera do dia da cidade, foi convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa (STML) e pelo Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local (STAL), abrangendo todos os setores e funcionários da autarquia e das juntas de freguesia de Lisboa.

Os trabalhadores do município também vão estar em greve ao trabalho extraordinário entre 13 e 22 junho, e no dia 14 de junho os trabalhadores da limpeza urbana vão parar entre as 00:00 e as 05:00.

Mário Jorge Santos adiantou que a recuperação [da higiene] da cidade é outro aspeto a ter em conta, pois, segundo o clínico, não se sabe se, quando a paralisação terminar, «se consegue dar destino a todos os resíduos acumulados».

O presidente da ANMSP acrescentou que a acumulação de lixo biológico e orgânico «nunca é boa para a saúde», nomeadamente numa época de temperaturas elevadas, que faz com que estes resíduos entrem mais facilmente em decomposição.

Esta conjuntura pode também atrair animais, como ratos e moscas, que acarretam doenças, «embora na atualidade em Portugal essas doenças sejam raras», frisou Mário Jorge Santos.

O presidente da ANMSP reconheceu, no entanto, que tratando-se de um período curto, «provavelmente não haverá grandes problemas».

De acordo com o profissional de saúde, tudo depende da gestão dos resíduos, que pode ser dificultada pelo processo de transferência de competências para as juntas de freguesia.

Carla Madeira, presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, que abrange bairros como a Bica e o Bairro Alto, indicou à Lusa que esse processo «não vai afetar» os efeitos da paralisação pois «uma coisa não tem nada a ver com outra».

Já o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que inclui Alfama, o Castelo e a Mouraria, entre outros bairros, apontou que a greve «vai ter consequências muito nefastas para as populações destes bairros, [porque] vão vender muito menos».

Afirmando-se preocupado com esta questão, Miguel Coelho apelou ao esforço da Câmara Municipal de Lisboa, reconhecendo, porém, que «todas as medidas serão certamente muito insuficientes para responder» à greve.

Mário Jorge Santos, presidente da ANMSP, recomendou que os visitantes evitem os locais de grande concentração de lixo e que os moradores tentem produzir o mínimo possível de resíduos.

Na terça-feira, o presidente da Câmara de Lisboa e o Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa estiveram reunidos durante cerca de quatro horas e meia, mas sem que a greve tivesse sido desconvocada.

«A greve para já mantém-se. Vamos reunir amanhã [quarta-feira] com a direção [do sindicato] para avaliar as propostas que o senhor presidente [da Câmara Municipal de Lisboa] nos apresentou, de solução dos vários problemas que aqui trouxemos», disse Vítor Reis, do sindicato no final da reunião, nos Paços do Concelho.

Vítor Reis acrescentou que em cima da mesa esteve a proposta de entrada imediata de 150 trabalhadores para a área da limpeza urbana, sendo que 125 serão avençados e os restantes contratados através do Contrato Emprego-Inserção (CEI), do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP).