A Ordem dos Médicos detetou falhas na formação de internos no hospital Santa Maria, mas não encontrou médicos ainda em formação a assegurar urgências sozinhos, apesar de denúncias que apontavam nesse sentido.

Após uma visita a vários serviços do hospital Santa Maria, em Lisboa, o bastonário dos médicos indicou que o hospital Santa Maria “está a atravessar um momento difícil em termos de serviço de urgência”, havendo internos que estão a fazer urgência geral quando, segundo o seu programa de formação, já não o deviam fazer.

Em declarações aos jornalistas no final da visita ao hospital Santa Maria, Miguel Guimarães explicou que, a partir de determinado momento da sua formação, os internos devem deixar de fazer urgência geral e centrar-se na sua especialidade, adiantando que esta situação foi reconhecida pela direção clínica do hospital e que deverá estar resolvida em outubro.

Quanto a denúncias de médicos internos a realizar urgência sozinhos, o bastonário adianta que esta denúncia não se confirma, mas lembrou que chegou a ocorrer pelo menos na especialidade de pneumologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte, que integra o Santa Maria e o Pulido Valente.

Também o presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar, Carlos Martins, negou a existência de internos sozinhos a assegurar urgências.

Quanto à situação dos internos de várias especialidades do Santa Maria, o bastonário confirmou que são “pressionados a fazer” mais horas de urgência do que aquilo a que são obrigados, considerando que tal se deve às deficiências de pessoal na urgência da unidade.

“É fundamental que, com caráter de urgência, se faça uma reforma do serviço de urgência. A nível global, nacional. E isso inclui os hospitais e sobretudo os cuidados de saúde primários”, apelou Miguel Guimarães, dirigindo-se ao ministro da Saúde.

Ainda quanto ao hospital Santa Maria, o bastonário disse ter encontrado uma situação “muito grave” quanto à bolsa de horas extraordinárias cumprida pelos médicos internos, indicando que, ao fim de dois meses, essas horas acumuladas desapareciam do sistema.

“É uma situação muito grave e que coloca em causa a justiça de remuneração e da compensação do trabalho”, indicou.

Da parte da administração do hospital, Carlos Martins indicou que a situação se deveu a um problema informático que está já resolvido, garantindo que os profissionais não serão penalizados.

Sobre as situações apontadas pela Ordem dos Médicos, o administrador do Centro Hospitalar reconhece que sem sempre é fácil adequar os meios humanos aos “fluxos repentinos” na urgência, mas vinca o “investimento muito grande” que tem feito na carreira médica.

De acordo com dados que forneceu aos jornalistas, até final de agosto entrarão novos 54 médicos no Santa Maria. Entre entradas e saídas de médicos entre 2013 e agora, há um saldo positivo de 120 médicos.

Ou seja, o hospital tem um saldo positivo de 120 médicos em comparação com o que tinha em 2013. Já no período de 2008 a 2012 o saldo tinha sido negativo (menos 16 médicos).

Quanto à visita da Ordem ao Centro Hospitalar Lisboa Norte, o bastonário dos Médicos foi questionado sobre a existência de denúncias semelhantes por parte de internos de outros hospitais, tendo indicado desconhecer para já situações concretas idênticas.

A formação dos médicos é feita essencialmente no Serviço Nacional de Saúde, mas há já também unidades privadas que recebem internos em algumas especialidades. Miguel Guimarães disse igualmente não ter queixas sobre a formação médica em unidades privadas, embora sublinhe que o número de especialidades e unidades que recebem internos é ainda muito reduzido.

A visita da Ordem abrangeu os serviços de oncologia, imunoalergologia, endocrinologia, reumatologia, hematologia e também o serviço de urgência do Centro Hospitalar Lisboa Norte, em concreto do Hospital de Santa Maria.