A mãe do principal suspeito do crime que abalou Salvaterra de Magos deu uma entrevista exclusiva à TVI. Susana Neves falou da dor e da surpresa do homicídio que o filho acabou por confessar.

"Ver na televisão o filho a passar algemado não é fácil", confessou, acrescentando que tentou controlar o filho, mas "não conseguia estar 24 sobre 24 horas em cima do Daniel".


Filipe Diogo, de 14 anos, terá sido morto por Daniel, de 17, com uma barra de ferro e os motivos terão sido os mais fúteis: a roupa que vestia, dos ténis de marca que calçava e por causa do telemóvel. 
  
O suspeito do crime foi ouvido, na sexta-feira, no Tribunal de Santarém e encontra-se em prisão preventiva. Ainda na quinta-feira, o jovem de 17 anos confessou o crime às autoridades. Foi, aliás, essa confissão que permitiu às autoridades localizar a vítima. O adolescente foi encontrado já sem vida, com ferimentos no crânio. Estava na arrecadação de um prédio, em Salvaterra de Magos, próximo da casa onde vivia com a avó. 

“Não consigo entender como pode fazer tamanha crueldade… Vai pagar por isso. Deus me perdoe mas devia ser entregue para fazerem justiça pelas próprias mãos… É um pesadelo, a minha vida acabou… Preferia mil vezes que ele estivesse no lugar do Filipe. Peço perdão, não posso fazer mais nada nesta hora.”

 
As palavras são da mãe de Daniel, o presumível homicida do crime de Salvaterra de Magos. Um texto publicado nas redes sociais horas depois da detenção do filho. Susana Neves, que recebeu a equipa da TVI em exclusivo na própria casa, explica que decidiu retirar o texto do Facebook.

“Falei a quente. Sim, falei a quente. (…) Imagine receber uma notícia dessas, ver na televisão o filho a passar algemado e saber os contornos do crime…não é fácil”, revela.


Apesar da dor, Susana Neves afirma que vai acompanhar e visitar o filho mesmo que ele tenha uma pena pesada.

“Claro que sim. É meu filho. Não sou um rato para abandonar o barco. Ele é meu filho. É meu. Neste momento já não tem pai, neste momento só tem mãe”, afirma.


A história começou com o desaparecimento de um rapaz de 14 anos em Salvaterra de Magos. O cadáver aparece três dias depois no sótão de um edifício da vila. Daniel, 17 anos, estudante de Eletrónica na Escola Profissional de Salvaterra de Magos transforma-se no principal suspeito do crime.

“O Daniel chegou ao ponto de já me roubar coisas em casa. Ele não fazia nada daquilo que nós lhe dizíamos, ele não queria ir à escola, eu comprei-lhe o material todo. Comprei-lhe os livros. Eu não conseguia estar 24 sobre 24 horas em cima do Daniel”, conta a mãe.


O diagnóstico de hiperatividade foi confirmado aos quatro anos de vida. O Daniel ficou órfão de pai aos dez e passou a dar ainda mais trabalho à família.

“Eu pedi por tudo à CPCJ [Comissão de Proteção de Crianças e Jovens]. Façam qualquer coisa. Ajudem-me! O meu filho está a meter-se, falo português, na porcaria. O meu filho está a ir por água abaixo. Ajudem-me! Alguém faça alguma coisa que eu tenho mais dois menores em casa”, recorda Susana Neves.


A mãe de Daniel revela que o pedido de ajuda foi ouvido e que a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens lhe arranjou, no mesmo dia em que fez o pedido, um sítio para o Daniel. Mas Susana Neves realça que “lhe apontaram o dedo."

“Fui apontada novamente… apontaram-me novamente o dedo… porque fui uma má mãe, porque fui entregar o meu filho. Eu acho que não. Acho que fui pedir ajuda. Alguém tinha de me ajudar”, defende.


A vida já tinha dado várias oportunidades a Daniel. Desta vez, foi preso. Acompanhou sem resistência os agentes da PJ e confessou o crime. Daniel admitiu que utilizou uma barra de ferro para assassinar Filipe Diogo.

A mãe desmente que o filho Daniel e a vítima, Filipe, se conheceram apenas alguns dias antes do crime.

“Eles já se conheciam há algum tempo. Não vou dizer que se conheciam há um ano ou dois, mas já se conheciam há algum tempo e não há dois dias atrás. Não sei dizer quantos meses, mas provavelmente… três, quatros meses”, diz Susana Neves à TVI.


Daniel está indiciado pelos crimes de homicídio qualificado e pelos crimes de profanação de cadáver de Filipe Costa. Daniel passou por uma instituição em Fátima, depois provisoriamente por Caxias e acabou na Navarro de Paiva, em São Domingos de Benfica, em Lisboa, onde permaneceu durante 18 meses.

“Já vinha com outras maneiras, já falava de outra forma, mas foi sempre um miúdo muito calado, muito reservado, nunca foi violento. Eu sempre disse… mostra agora, a toda a gente, que ainda vai ser um homem”, refere a mãe.


Mas Daniel voltou ao mesmo. Em 2000, Daniel e os amigos foram a julgamento pelos crimes de dano e furto qualificado. Para Daniel, a sentença ditou a medida de tarefas a favor da comunidade pelo período de 40 horas. A mãe fala em comportamentos desviantes agravados com a morte do pai.

“Ele assistiu à morte do pai… Ao fim nem de dois meses ele assistiu à morte da avó… mas eu acho que uma das frases que o marcou muito foi quando o pai, no dia anterior, por causa das coisas que ele fazia, e chateou-se com ele e disse: tu qualquer dia matas-me do coração, rapaz…E o certo é que o pai no dia a seguir morreu do coração… Acho que isso mexeu um bocadinho, mas… não há desculpa”, defende Susana Neves.


Além de Daniel foram ouvidas pelo menos mais três pessoas no processo de Salvaterra de Magos. Está a ser averiguada a possibilidade de agressão sexual. Daniel confessou os factos aos inspetores da Polícia Judiciária, mas sendo verdade o que consta que Daniel se remeteu ao silêncio diante do juiz de instrução de Santarém, todas as declarações que o mesmo possa ter prestado perante a PJ não podem ser usadas contra ele em julgamento.

A resposta é simples: por lei, exatamente desde a semana passada, todos os atos têm de ser gravados. De acordo com fonte judicial, valem somente as declarações prestadas perante o juiz.

A TVI sabe que vários especialistas na área da saúde mental se ofereceram para fazer uma análise psicológica e psiquiátrica do arguido. A defensora oficiosa não comenta, mas o internamento num centro educativo especializado é a medida que será possivelmente solicitada pela defesa.

Toda esta história valeu a Daniel a medida de coação mais pesada: prisão preventiva. No estabelecimento prisional de Leiria tem ajuda psicológica. Por lá vai continuar até que os relatórios psiquiátricos, psicológicos e físicos estejam concluídos. O caso continua a ser investigado e já se encontra na Brigada de Homicídios da PJ.