Cinco minutos. No caso de de uma paragem cardiorrespiratória, cinco minutos podem fazer toda a diferença. Por isso, a intervenção precoce é fundamental.

Numa paragem cardíaca, ao fim de cinco minutos, iniciam-se as lesões definitivas ao nível do cérebro, por falta de oxigénio. Ao fim de 10 minutos, a vida já não é compatível com aquilo que desejamos. Se tivermos em conta que o socorro demora, em média, 10 a 12 minutos a chegar em grande parte da Europa, é nas mãos da sociedade civil que está a vida do cidadão a quem parou o coração”, alerta Gabriel Boavida, um dos fundadores do movimento de cidadãos Salvar Mais Vidas.

Por isso, o movimento cívico Salvar Mais Vidas quer não só aumentar o rácio de desfibrilhadores externos por mil habitantes, como dotar cada cidadão de capacidades de prestar os primeiros socorros a um paciente em paragem cardiorrespiratória, até à chegada do socorro especializado.

Uma pessoa que se limita a ligar para o 112 já faz muito, mas está a condenar a pessoa à morte ou a lesões irreversíveis.”

Os números de taxa de sobrevivência em Portugal são muito reduzidos. Não vão além dos 3%, quando a média europeia é 10 vezes mais. “São 10 mil mortes todos os anos, cerca de uma morte por hora, com uma taxa de sobrevivência pouco acima dos 3%, que é das mais baixas da Europa”, resume Gabriel Boavida.

Veja aqui o manifesto do movimento: 

Manifesto Movimento Salvar Mais Vidas by TVI24 on Scribd

O movimento quer reverter esta situação:

Costumo dizer, embora em tom de brincadeira, que quero ser campeão europeu a salvar vidas.”

O papel da sociedade civil é “importante e fulcral”. Cada um de nós deveria, pelo menos, ter formação em Suporte Básico de Vida. E isso devia começar cedo, nos bancos das escolas.

A escola secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro, Sintra, é um bom exemplo. Quase mil alunos já estão capacitados para prestar os primeiros socorros a um colega, a um amigo, a um familiar ou simplesmente a um desconhecido que encontrem na rua.

O Salvar Mais Vidas quer ver este exemplo replicado em todas as escolas do país.

A génese do movimento

O movimento Salvar Mais Vidas já foi muito mais além, mas nasceu de uma tragédia pessoal, vivida por Gabriel Boavida. O irmão, o ator José Boavida, morreu vítima de uma paragem cardiorrespiratória, a 26 de janeiro de 2016. Caiu inanimado numa rua da Amadora.

O ator José Boavida morreu em janeiro de 2016, vítima de paragem cardiorrespiratória (DR)

Quem o encontrou, não soube prestar os primeiros socorros cruciais e não soube sequer ativar os meios de socorro.

As manobras de Suporte Básico de Vida são fundamentais e necessárias, mas, em caso de paragem cardiorrespiratória, a situação só é revertida com desfrebrilhador. Por isso é fundamental que pelo menos cada ambulância esteja equipada com um desfibrilhador externo”, alerta Gabriel Boavida.

O caso de José Boavida foi ainda mais dramático. A morte do ator veio tornar público que o Hospital Fernando da Fonseca (Hospital Amadora-Sintra), que serve dois dos concelhos mais populosos do país, não estava equipada com uma viatura médica de emergência e reanimação (VMER).

Ou vinha de Lisboa ou vinha de Cascais. Eu achei que era uma situação insustentável. Agora, a nossa VMER é aquela que mais vezes sai no país. Agora, as pessoas já não morrem nos passeios ou nas escolas por falta de socorro”, orgulha-se Basílio Horta, presidente da Câmara de Sintra e um dos mais ferverosos apoiantes do movimento.

Além dos 420 mil habitantes, o concelho de Sintra tem de se responsabilizar também pelos mais de cinco milhões de visitantes que recebe por ano. “Era muito difícil ser presidente de uma câmara onde os munícipes podiam morrer nas ruas sem assistência cardiorrespiratória. Isso não era possível”, resume Basílio Horta.

As escolas do concelho de Sintra e os edifícios públicos estão já equipados com desfibrilhadores. E, em muitas, já há formação a alunos e professores.

Muitos ainda vêm de pé atrás, mas a adesão é ótima. Principalmente quando percebem que são eles que podem fazer a diferença. Somos nós os leigos que estamos ao pé das situações que acontecem. Pode acontecer em casa deles e eles podem ter um papel fundamental na sobrevivencia dessa pessoa”, explica a professora Susana Oliveira, uma das docentes que dá formação em Suporte Básico de Vida na Escola Leal da Câmara.

O movimento tem adquirido apoios de peso. Muitas figuras públicas, nomeadamente da área da saúde, já deram a cara pelo projeto. Gabriel começa a ver o sonho concretizado, mas a estrada é longa e há ainda muito caminho a percorrer.