Terminou no Rossio o desfile que assinalou os 40 anos da revolução dos cravos, com um discurso de um militar de Abril marcado pelas mesmas críticas e apelos que muitos populares reproduziram enquanto desciam a Avenida da Liberdade.

Aprígio Ramalho, militar de Abril, falou na praça do Rossio, em Lisboa, em nome da Associação 25 de Abril, para as milhares de pessoas que ali foram chegando, depois de terem desfilado desde a Avenida da Liberdade até ali.

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Deixando críticas ao Governo, aos políticos e às ligações que estes mantêm com grandes grupos económicos, Aprígio Ramalho afirmou que «os ataques que vêm sendo desferidos contra as conquistas de Abril» levaram o país «à pior situação» económica e social do pós-revolução.

Para o militar, o Governo «perdeu já a legitimidade ética, moral e cívica para o exercício de funções», perdeu «o respeito e a confiança dos portugueses», e afirmou que «está na hora de um sonoro grito de alerta que desperte os portugueses» e de combater «a resignação e a apatia».

Momentos antes do início do discurso que encerrou o desfile, Nuno, com a filha mais nova às cavalitas, justificou a sua presença na iniciativa: «é preciso não esquecer».

Marta, a filha, ainda não lhe tinha feito qualquer pergunta sobre o que se passava hoje nas ruas e sobre o que foi o 25 de Abril, mas quando perguntar, Nuno disse que lhe vai explicar que «é preciso preservar o que temos e defender a liberdade».

Não se lembra onde estava exatamente há quarenta anos, mas tem bem presente a memória de onde estava na semana a seguir: exatamente onde estava esta sexta-feira a sua filha, às cavalitas do pai, a participar nas celebrações do primeiro 1.º de Maio.

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Olga Mateus saiu esta sexta-feira à rua para protestar, porque acredita que «está muita coisa em causa conquistada no 25 de Abril».

Reformada, gostava de ver os políticos e os deputados a serem alvo dos mesmos cortes que atingem os pensionistas da função pública: «Trabalhei para receber algum e não vejo cortar em coisas que deviam cortar, como nas despesas da Assembleia da República, nas reformas que têm ao fim de poucos anos de trabalho, enquanto nós trabalhamos 40 anos e depois tiram-nos aquilo que poupamos».

Também Ermelinda Gonçalves, aposentada da função pública há 18 anos, se queixa do Governo que lhe tirou «as migalhas» que contava ter na reforma.

«Estou a fazer o mesmo com a minha neta que fazia com o meu filho antes do 25 de Abril: tinha que partir um bife ao meio ou mesmo dizer que não queria o bife. É muito complicado» lamentou a pensionista, que gostava de ver mais manifestações como «aquela maravilhosa» de 15 de setembro de 2012, onde milhares saíram à rua, indiferentes a cores partidárias.

Do dia da revolução, há 40 anos, lembra-se que estava a trabalhar e de ter voltado para casa para festejar com o filho, na altura com 11 anos e recordou o seu primeiro ato de liberdade em liberdade: «O primeiro jornal que comprei à minha porta foi o Avante, que era proibido. E tudo o que era proibido era desejado. Foi um dia muito feliz para nós. Hoje estamos muito tristes».

Pedro Moniz é um jovem demasiado novo para ter vivido o dia da revolução, mas esteve esta sexta-feira na Avenida da Liberdade, em Lisboa, porque acredita que a sua geração, e outras, que também não viveram o dia que devolveu a democracia a Portugal, têm a obrigação de lutar por «uma democracia que se está a degradar cada vez mais».