Atualizada às 12:43

O angolano Ondjaki, de 36 anos, com o romance «Os Transparentes», é o vencedor do Prémio José Saramago 2013, no valor de 25 mil euros, foi anunciado esta terça-feira em Lisboa, na Casa dos Bicos.

«Este prémio não é meu, este prémio é de Angola», reage o escritor, citado pelo jornal «Público».

É a oitava edição do galardão, instituído pela Fundação Círculo de Leitores, que distingue autores com obra editada em língua portuguesa, no último biénio, menores de 35 anos à data de publicação da obra.

O júri, presidido por Guilhermina Gomes, do Círculo de Leitores, foi constituído pela poetisa Ana Paula Tavares, Manuel Frias Martins, da Universidade de Lisboa, Maria de Santa Cruz, da Universidade de Aveiro, Nazaré Gomes dos Santos, da Universidade Autónoma de Lisboa, pelos escritores Nélida Piñon e Vasco da Graça Moura e por Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago.

A obra «Os Transparentes» foi publicada em 2012 pela Editorial Caminho e, segundo Vasco Graça Moura, surpreende pela «maneira como a sua utilização da língua portuguesa é, não só capaz de captar com a maior naturalidade as mais diversas situações num contexto social tão diferente do nosso, mas comporta em si mesma fermentos de uma inovação que espelha com força e realismo um quotidiano vivido na sua trepidação e também funciona eficazmente ao restituí-lo no plano literário».

A presidente da Fundação Saramago afirma, por seu turno, que «ao lermos "Os Transparentes" temos a sensação de estar a ler uma literatura inaugural». «Sabemos que não é assim, que Angola tem grandes escritores e que muitos fazem do português em África um idioma sólido, versátil e belo, e que também Ondjaki faz parte de uma poderosa constelação», salienta Pilar del Río.

A escritora brasileira Nélida Piñon considera que «o romance traz-nos a voz da África. A arte da África. Aviva os lamentos de Luanda e do mundo». «No seu curso narrativo, o autor empurra para a minha consciência o terror que o poder inspira e a desconfiança quanto às ações humanas. Mostra-nos que a literatura, além de uma dimensão estética, de sua voracidade ficcional, faz-se de uma verdade que não burla, que diz respeito a cada leitor», acrescenta a escritora.

Nazaré Gomes dos Santos afirma que Ondjaki «surpreende os seus leitores (que já são muitos) pela maneira como continua a investir num projecto literário multifacetado, no qual, além do investimento das estratégias irónicas e do humor corrosivo, se evidencia também uma ostensiva contaminação da prosa com a poesia».

Prémio no dia em que é publicado novo livro

Ondjaki recebeu o Prémio José Saramago no mesmo dia em que é publicado o seu novo livro, «Uma escuridão bonita», com ilustrações de António Jorge Gonçalves.

Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, é um termo da língua umbundu que significa «guerreiro». O autor estreou-se literariamente em 2000 com o livro de poesia «actu sanguíneu», que lhe valeu uma menção honrosa do Prémio António Jacinto, nesse mesmo ano.

Nascido em Luanda há 36 anos, Ondjaki tem publicados vários títulos nas áreas de poesia, conto, novela, romance e teatro, e assinou, em 2006, com Kiluanji Liberdade, o documentário «Oxalá cresçam pitangas».

O escritor junta o Prémio Saramago a outros galardões já recebidos, nomeadamente o Prémio António Paulouro, em 2005, pelo livro de contos «E se amanhã o medo», o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores, pela obra «Os da minha rua», em 2007, o Grinzane for Africa- young writer, o brasileiro Jabuti, na categoria juvenil, pela obra «AvóDezanove e o segredo do soviético», em 2010, e ainda o angolano Caxinde do Conto Infantil, pelo título «Ombela, a estórias das chuvas», em 2011.