Este foi o ano em que, terminado o resgate da troika, deixaram de ser os ministros com as pastas das Finanças e da Economia os principais alvos da oposição. Ao longo de 2014, sucederam-se os pedidos de demissão a Paula Teixeira da Cruz, na Justiça, e Nuno Crato, na Educação, mas ambos continuam no Governo de Passos Coelho. E acabou por ser uma investigação judicial a fazer cair o único ministro: Miguel Macedo, da Administração Interna.
 
Depois de já ter «sobrevivido» a manifestações violentas, cargas policiais, cidadãos agredidos e até à subida da escadaria da Assembleia da República por parte dos polícias, Miguel Macedo não resistiu à investigação à atribuição dos vistos gold, que deteve 11 pessoas por suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais, tráfico de influências e peculato.


 
Quando a «Operação Labirinto» entrou em campo, foram realizadas buscas em três ministérios: Administração Interna, Justiça e Ambiente. Entre os detidos, a 13 de novembro, estava Manuel Jarmela Palos, o até então diretor do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Era a primeira vez que um responsável máximo de um serviço de segurança era detido. Os outros principais detidos eram o presidente do Instituto dos Registos e Notariado, António Figueiredo, e a secretária-geral do Ministério da Justiça, Maria Antónia Anes. Também Albertina Gonçalves, secretária-geral do Ministério do Ambiente, foi constituída arguida, apesar de não ter sido detida. Todos eles demitiram-se dos seus cargos.
 
Apesar do então ministro da Administração Interna não estar a ser objeto da investigação, a sua proximidade com alguns dos envolvidos (Macedo e Albertina Gonçalves eram sócios numa firma de advogados) e algumas notícias que davam conta de ter sido alvo de escutas levaram-no a sentir a sua «autoridade diminuída» perante as forças de segurança. Enquanto Miguel Macedo voltou a ser deputado na bancada do PSD, até agora sem dar nas vistas, a magistrada Anabela Rodrigues ficou com a pasta da Administração Interna, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo.
 
O abalo sentido pelos vistos gold foi apenas um de muitos na área da Justiça em 2014, um setor que viu o novo mapa judiciário transformar-se num pesadelo sem fim para a ministra Paula Teixeira da Cruz. Quando, a 1 de setembro, a reforma entrou em vigor, muitos estariam à espera de protestos pelo encerramento de muitos tribunais, mas poucos imaginariam o caos em que se transformaram os mesmos, praticamente a funcionar em serviços mínimos, devido aos problemas informáticos com o Citius.
 
O programa informático que suporta a atividade judicial foi, aliás, tema de um Repórter TVI que denunciou o «Estado de Citius» em que viviam os tribunais nessa altura. Paula Teixeira da Cruz chegou a pedir desculpa, mas não assumiu responsabilidades políticas e são dois funcionários da PJ que estão a responder por uma alegada sabotagem da plataforma.


 
Outro ministério que esteve debaixo de fogo foi a Educação. E, ao que parece, também devido a um erro de uma plataforma, mas desta vez a responsável pela Bolsa de Contratação de Escola, uma nova forma de colocação de professores contratados que levou a que milhares de alunos não tivessem o horário completo até dois meses depois do início do ano letivo.
 
De atraso em atraso, o ministro Nuno Crato ia pedindo desculpas, mas o único a sair foi o diretor-geral da Administração Escolar, Mário Agostinho Pereira. O erro, assumido por todos, vai ser colmatado com aulas de compensação para os alunos e eventuais compensações para os professores. O real impacto das muitas horas de salas vazias só se apurará mais concretamente no final do ano, com a realização dos exames.
 
Crato já tinha passado por outro «exame» com a prova de avaliação para os professores, que em 2013 causou muitos distúrbios nas escolas e foi repetida em julho e dezembro deste ano. No verão, o ministro da Educação anunciou a data poucos dias antes da prova, evitando assim o período durante o qual podia ser convocada uma greve. Mesmo assim, registaram-se alguns incidentes, como a invasão de uma escola no Porto.
  
Em 2014, o Governo de Passos Coelho «aguentou-se» com a saída de Miguel Macedo e três secretários de Estado. João Grancho, ex-secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, pediu a demissão depois de notícias sobre trabalhos académicos alegadamente plagiados. Francisco Gomes da Silva, ex-secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, saiu por «razões pessoais». E Carlos Moedas, ex-secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, abandonou o Executivo para se tornar comissário europeu.