Foi há precisamente um ano que a tragédia do Meco abalou o país e especialmente as famílias dos seis estudantes da Universidade Lusófona que perderam a vida depois de terem sido arrastados por uma onda, na praia do Moinho de Baixo, no Meco.

Um ano e várias diligências depois, os familiares das vítimas continuam a questionar as circunstâncias do incidente e prometem não baixar os braços enquanto todas as dúvidas não forem esclarecidas. Mas, um ano depois da tragédia, o que sabemos afinal sobre o que realmente aconteceu?

Sobre a vida destas famílias paira em suspenso a possibilidade de as mortes terem ocorrido no contexto de uma praxe académica e de ter havido um envolvimento direto de João Gouveia, «dux» da Lusófona e único sobrevivente da tragédia, nos acontecimentos. Uma hipótese que o Ministério Público (MP) já recusou quando arquivou o inquérito, em julho, mas que os pais não excluem por entenderem que existem várias contradições nas conclusões da investigação.





O cenário de praxe foi colocado em cima da mesa logo nos primeiros dias que se seguiram à tragédia. Os jovens tinham sido vistos a ir para a praia vestidos com o traje académico e sabia-se que nessa noite apenas João Gouveia teria levado o telemóvel consigo.

A investigação conduzida pela TVI apontava para este mesmo enquadramento. As mensagens trocadas por uma das vítimas, Joana Barroso, e duas amigas, confirmaram um fim de semana do Conselho de Praxe (COPA) da universidade e os documentos a que a TVI teve acesso mostraram que esta não era uma situação inédita: terão ocorrido outros fins de semana de praxes, onde terão acontecido rituais violentos, com os praxados amarrados e obrigados a rastejar.

Mais, testemunhas da localidade de Aiana de Cima, onde os estudantes estavam alojados nesse fim de semana, que foram ouvidas pelo MP, asseguraram ter visto os estudantes a rastejar com pedras.

Apesar das várias suspeitas, a versão de João Gouveia foi outra e afastou a ideia de praxe. O único sobrevivente garantiu às autoridades que não houve qualquer ritual académico naquela noite de dezembro. Declarações que terão pesado na decisão do MP quando o inquérito foi arquivado.

Depois de sete meses de investigação, o MP de Almada concluiu, a 25 de julho, que tudo não passou de um acidente. De acordo com o despacho de 100 páginas, o grupo de sete jovens, onde se incluía João Gouveia, foi arrastado para o mar, surpreendido por uma onda de grandes dimensões, quando conviviam no areal.

De imediato, a decisão foi contestada pelos familiares das vítimas que não só questionaram o arquivamento, como defenderam que o mesmo apenas adensava ainda mais as dúvidas em relação incidente.

Para o advogado das famílias, Vitor Parente Ribeiro, o arquivamento do inquérito passou pela descredibilização de todas as testemunhas que garantiram ter visto os estudantes a ser praxados. As testemunhas em causa chegaram mesmo a ser ouvidas quatro vezes, algumas delas em casa e não no tribunal como seria normal, segundo o que a TVI apurou.
 

 «O que é que estas testemunhas teriam a ganhar em dizer seja o que for que não fosse a verdade?», questionou o advogado.






Outra das contradições apontada pela famílias prende-se com as localizações celulares.

Uma análise aos documentos fornecidos pela Vodafone à Polícia Judiciária mostra que os telemóveis de João Gouveia e de uma das vítimas, Catarina Soares, acionaram na noite fatídica as antenas da Costa da Caparica e de Oeiras norte, em vez da antena do Meco. Perante estes dados, as famílias acreditam que João Gouveia poderá ter fugido da praia e regressado, mais tarde, para simular uma situação de pré-afogamento.

A TVI sabe que nem a PJ nem o Procurador da República titular deste caso fizeram qualquer análise a esta informação que esteja registada no processo.

Mas as incongruências não ficam por aqui.

A TVI apurou ainda que a roupa que João Gouveia usava na noite fatídica foi entregue à Polícia Judiciária três meses depois da tragédia ainda molhada. Uma situação que intriga os familiares das vítimas.
 

«Qualquer pessoa normal, sem estar nas lides da investigação criminal percebe que ao fim de três meses não há roupa nenhuma que se mantenha molhada», questionou o advogado Vítor Parente Ribeiro.



O que aconteceu afinal naquela madrugada de 15 de dezembro? Por que estavam os jovens estudantes trajados no areal do Meco? Por que deixaram os telemóveis em casa?

Se o despacho do MP não conseguiu provar nenhuma das suspeitas, também é certo que não apresentou explicações cabais sobre o incidente. Os pais exigem respostas claras da Justiça e, por isso, apresentaram um pedido de abertura de instrução.

Pedido aceite, o processo foi reaberto a 15 de outubro e João Gouveia constituído arguido. Uma espécie de segunda oportunidade que as famílias tomam como uma nova esperança para aquilo que mais desejam: o apuramento da verdade.


Recorde os principais acontecimentos do caso Meco, através da cronologia.