Se ser mulher já não é fácil, ser mulher e refugiada é ainda mais difícil, concordaram as três oradoras convidadas para uma conferência em Lisboa, realizada esta sexta-feira, rejeitando a imagem redutora de “heroínas ou vítimas”.

Uma iraniana, uma colombiana e uma palestiniana partilharam as suas experiências, enquanto refugiadas a viverem na Europa, a convite da conferência internacional “Mulheres refugiadas”, organizada por três organizações – Fundação Friedrich Ebert, Associação Mulheres sem Fronteiras, da Faces de Eva – CCIS.NOVA e Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres – e que se realizou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Shahd Wadi, ativista e investigadora em estudos feministas, neta de refugiados palestinianos, sublinhou que as migrações não são “um problema de hoje”, refutando a ideia de uma “crise” recente.

Tentando desconstruir o discurso em torno da situação, Wadi questionou ainda se a inclusão de mulheres nos grupos prioritários de apoio aos refugiados não serve apenas para reforçar estereótipos e colocá-las no papel de vítimas, ao nível das crianças.

Já sobre a integração, a palestiniana frisa que “não basta integrar os outros no nosso círculo, mas procurarmos também integrar-nos em diferentes círculos”.

A colombiana Bibiana Pineda, ativista do Teatro das Oprimidas e do Coletivo Creando Memoria, recordou como se sentiu “muito sozinha”, enquanto mulher refugiada política, que chegou desacompanhada à Europa.

“Quando se é refugiada, veem-nos como heroína ou vítima”, lamentou. “Não sei o que era melhor, dizer que era da Colômbia, ou que era refugiada…”, ironizou a ativista pelos direitos humanos.

Na Europa, não lhe reconheceram o percurso académico, nem a experiência profissional. Sentiu “o chão fugir debaixo dos pés” e até ganhou alergias que antes não tinha. “Ainda não me sinto em casa. Nunca me senti, nos vários países em que já vivi na Europa”, desabafou.

Pineda começou a fazer teatro e dele retirou “a coragem”, alimentada por expressões artísticas que ultrapassam a barreira da língua.

A viver atualmente em Berlim, na Alemanha, diz que “tudo é político” no acolhimento de migrantes e refugiados. “Não falem por mim e concluam sobre as minhas necessidades. Eu percebo, aprecio e agradeço o esforço, mas deixem-me falar sobre as minhas necessidades”, apelou.

Em 1986, Behshid Najafi deixou o Irão, onde combateu a ditadura e lutou pela liberdade, em direção a Colónia, na Alemanha, onde dirige um centro de apoio a mulheres refugiadas.

“O Estado social alemão não permite que as pessoas passem fome ou vivam na rua”, assinalou, frisando que os cidadãos têm de exigir que os governos cumpram esses princípios.

A iraniana concorda que a Alemanha, sendo um dos países mais ricos do mundo, pode acolher mais migrantes e refugiados, mas “a sociedade tem de mudar”.

Uma quarta oradora prevista, com estatuto de refugiada em Portugal, acabou por não poder participar na conferência, porque foi chamada pela escola do filho para o ir buscar – que foi assinalado por Shahd Wadi para demonstrar as dificuldades das mulheres refugiadas.