Agentes da polícia dos concelhos de Setúbal, Almada e Seixal e funcionários dos Transportes Sul do Tejo de Cacilhas terão trocado passes por dinheiro num alegado esquema fraudulento que durará há vários anos, escreve o Público nesta quinta-feira.

Segundo o diário, que diz ter testemunhado a situação, todos os meses, polícias com direito a carregarem gratuitamente o passe para o autocarro trocam esse direito por dinheiro, que lhes é entregue por funcionários dos TST.

O Público conta o caso de um polícia que se dirigiu a uma bilheteira com a requisição para o carregamento do passe e, em troca, recebeu 89 euros da funcionária, já depois de aquela ter ficado com 20 euros de comissão.

Nem todos trocam os passes por dinheiro, há polícias que fazem o carregamento do título de transporte, mas muitos outros, sobretudo das esquadras dos concelhos de Setúbal, Almada e Seixal, deslocam-se às bilheteiras apenas para receber o dinheiro. E, adianta o Público, o "passa-palavra" já chegou a Lisboa.

O esquema durará há vários anos, repetindo-se todos os meses e envolvendo também algumas chefias. Além da bilheteira de Cacilhas, o alegado esquema estará a ser replicado em pelo menos mais uma operadora de transportes da área metropolitana de Lisboa.

O comandante distrital da PSP de Setúbal, Manuel Dias, que classifica a situação de “anómala e estranha” por não ser “consentânea com a qualidade de agente de autoridade”, disse ao jornal que vai investigar o caso, adiantando que está neste momento a ser implementado um “novo sistema de carregamento dos passes mais seguro para o erário público”.

Também a administração dos TST garantiu não ter conhecimento da troca das requisições por dinheiro nas suas bilheteiras, uma prática não autorizada, mas vão levantar um inquérito de averiguações.

Já para a direção nacional da PSP “não é possível efetuar a troca das requisições dos passes de transporte por dinheiro nas bilheteiras das operadoras, pelo que tal não pode acontecer”. O porta-voz Paulo Flor acrescentou, porém, que a situação, “a existir, configuraria a prática de ilícitos tanto pelos polícias como pelos funcionários das operadoras de transportes, os quais estariam sujeitos às sanções criminais e disciplinares que decorreriam da aplicação da lei”.

Igualmente o presidente do Associação Sindical dos Profissionais de Polícia, Paulo Rodrigues, disse desconhecer a alegada fraude, mas não se mostra admirado, lembrando que, até meados dos anos 80, polícias e outros funcionários públicos equiparados podiam comprar senhas de combustível a um preço abaixo do custo de mercado, privilégio que terminou depois de se descobrir que havia quem as vendesse a amigos e conhecidos.