António Pereira Coelho, o médico que há 30 anos fez nascer o primeiro “bebé-proveta” português, recorda que nos primeiros tempos o elevado número de embriões que eram transferidos para o útero foi o pior desta técnica.

“Foi muito polémico o número de embriões a transferir. Naquela altura, talvez não tivéssemos bem a ideia da contrariedade que significava transferir todos os embriões viáveis”, disse o médico à agência Lusa, numa entrevista a propósito do 30º aniversário do nascimento da primeira criança concebida através de uma Fertilização In Vitro (FIV), em Portugal.

A 25 de fevereiro de 1986 nasceu Carlos Saleiro, conhecido como o primeiro “bebé-proveta” português. António Pereira Coelho foi o médico responsável pela introdução da técnica em Portugal, depois de trabalhar no seu desenvolvimento, em Paris.

O jogador de futebol Carlos Saleiro foi o primeiro bebé a nascer graças ao método de fertilização ‘in vitro’ em Portugal

Desses tempos, recorda que chegavam a ser transferidos para o útero seis e até sete embriões, “com a possibilidade, como aconteceu (sobretudo com as equipas inglesas, os franceses foram mais prudentes) de gravidezes de seis e sete embriões, que não podiam chegar a termo”.

“Houve ali uma fase muito desagradável em que era necessário fazer a chamada redução de embriões”, contou.

Esta fase foi, de alguma maneira, ultrapassada e compensada quando, em paralelo, se começou a fazer a criopreservação de embriões, a qual evitava que a mulher se submetesse a todos aqueles tratamentos e o desperdício de embriões que poderiam dar, se lhes fossem dadas condições, origem a seres humanos”.

António Pereira Coelho reconhece para quem trabalhava nesta área, e “independentemente de convicções filosóficas ou religiosas”, era “um bocadinho chocante: estar a desejar a todo o custo obter filhos para casais inférteis e ao mesmo tempo a desprezar uma quantidade significativa desses mesmos embriões que podiam ser transferidos em outra fase”.

Regressado a Portugal, António Pereira Coelho fez no Hospital Santa Maria o que aprendera em França e que consistia em “captar os ovócitos, metê-los em tubo a temperatura de 37 graus, com um meio especial para não destruir os ovócitos, e levá-los do hospital para o laboratório, onde eram tratados”, neste caso nas instalações do Instituto da Ciência da Calouste Gulbenkian.

O médico estava na altura consciente dos riscos: “Se a coisa corresse bem de início, toda a gente se iria associar ao êxito, participar, estimular. Se nas dez primeiras tentativas não conseguíssemos uma gravidez, toda a gente começaria a pôr entraves, a não querer colaborar, a dizer que se estava a gastar dinheiro aqui quando havia outras prioridades”.

“Felizmente que as coisas correram bem e nas dez primeiras tentativas conseguimos três grávidas”, contou.

Alda Saleiro foi a primeira mulher a dar à luz uma criança concebida por FIV. Carlos Saleiro veio ao mundo a 25 de fevereiro. Passados 30 anos, António Pereira Coelho confessa: “Enquanto não vi a criança cá fora estive sempre um bocadinho angustiado, mas reparei facilmente que estava tudo normal”.

“A minha satisfação é, por um lado, Portugal não ter ficado muito atrasado em relação a outros países, o que nem sempre acontece. E por outro lado, termos tido a fortuna de conseguir resultados que, na minha ótica, contribuíram muito para a aceitação” desta técnica.