O coordenador do Bloco de Esquerda (BE), João Semedo, acusou hoje a EDP de «crueldade social» ao cortar a luz nos bairros portuenses do Lagarteiro e de Contumil, defendendo que o Governo «tem que exigir responsibilidade social» à empresa.

«Quando se corta a eletricidade a pessoas que já vivem com tantas e tantas dificuldades isso é crueldade social. A EDP não vende automóveis, não vende bicicletas, vende um serviço de enorme impacto social e não pode ignorar as consequências das atitudes como esta que acaba de tomar», afirmou João Semedo durante uma visita ao bairro do Lagarteiro.

A EDP Distribuição cortou na quinta-feira e na sexta-feira o fornecimento de energia em várias habitações dos bairros do Lagarteiro e de Contumil, onde existiam, nalguns casos há vários anos, dezenas de ligações ilegais de eletricidade.

Para o BE, trata-se de uma situação de emergência social, já que «quem não paga a água, a eletricidade e outros bens e serviços é porque não tem dinheiro e faz escolhas dramáticas: ou paga a eletricidade ou compra a medicação, ou compra a medicação ou paga a renda, ou paga a renda ou paga os estudos do seu filho».

Para o coordenador do Bloco, «privar as pessoas de eletricidade sem que haja nenhum diálogo, sem que haja nenhuma discussão com a própria Câmara Municipal - que também não pode ficar a olhar para o problema sem nada fazer - não é [de] uma empresa com responsabilidade social».

«As empresas como a EDP têm responsabilidades sociais e o Governo deve exigir que elas as cumpram. O Governo tem que exigir que a EDP tenha essa responsabilidade social de não deixar estas pessoas às escuras, porque às escuras é a antecâmara de um submundo que não é aceitável no Portugal que nós ajudamos todos a construir», sustentou.

Segundo o BE, o sucedido no Lagarteiro e em Contumil é, aliás, «talvez a face mais negra e cruel da austeridade: privar as pessoas daquilo que é essencial, não apenas para viver, mas para sobreviver».

Para os bloquistas, impõe-se agora que a Câmara, a Segurança Social e a EDP se reúnam com as associações de moradores para traçar «um plano de emergência» que assegure o fornecimento de eletricidade aos bairros afetados.

Presente na visita do BE ao Lagarteiro, o assistente social da Junta de freguesia de Campanhã, José António Pinto, disse à Lusa que, naquele bairro, a EDP retirou os contadores de «pelo menos 84 habitações» o que significa que «são mais de 300» as pessoas afetadas pelo corte de eletricidade.

Contudo, admitiu, horas depois da operação da EDP «já não havia ninguém sem luz», pois foram repostas as ligações clandestinas.

«Qual era a solução? As taxas da EDP, desde que foi privatizada, dispararam; as famílias perderam o emprego, perderam o subsídio social de desemprego, perderam o RSI [Rendimento Social de Inserção] e perderam o apoio da Segurança Social, que deixou de ter verbas. As pessoas ainda chegaram a pagar, com o seu esforço, quatro ou cinco prestações, mas a partir desse momento tiveram que fazer uma opção: ou dar de comer aos filhos ou pagar a luz», sustentou.

Defendendo também a criação de um «plano de emergência social para esta zona», José António Pinto disse ter a «informação de que, brevemente, irá desenvolver-se uma iniciativa muito semelhante [de cortes] ao nível das águas».