A voz de Tânia (nome fictício) carrega o peso de 56 anos de uma vida de pobreza. A maior parte dela passada na rua, na prostituição, «um caminho», como lhe chama, que trouxe consigo o HIV. Vive, ou sobrevive, com o apoio social de uma instituição, com 178 euros do rendimento mínimo e um subsídio de 180 euros da Santa Casa da Misericórdia. Gosta muito do quarto que alugou e para o qual paga de renda 290 euros. Feitas as contas, tem 72 euros por mês e pergunta: «Como é possível viver assim?»

A resposta, difícil, que obriga a refletir, fica para depois. Esta sexta-feira, vidas como a de Tânia dão o mote ao Movimento Pobreza Ilegal, que pretende responsabilizar os políticos pelas decisões que tornam os pobres mais pobres e vigiar as instituições que não os estão a ajudar como deviam.

«O Estado vai gastando no que não é urgente, mas há uma total indiferença para quem está mal. Se há dinheiro para tapar buracos dos bancos, os Governos têm de dar à população os mínimos de qualidade de vida e, se não dão, devem ser responsabilizados por isso», explicou à
TVI24 Henrique Pinto, ex-presidente da CAIS e agora responsável pela associação «IMPOSSIBLE – Passionate Happenings», que organiza esta sexta-feira uma conferência sobre «Pobreza e Desigualdade».

A conferência chegou a ter como convidados vários nomes ligados à sociedade e à política, mas, segundo fonte da organização, houve bastante «resistência» ao tema da criminalização da pobreza. «Os partidos à direita estão naturalmente mais fechados, mas arrepia-me que os partidos à esquerda, defensores da causa, fiquem estranhos quando ouvem falar da pobreza criminalizada. Enquanto ela for legal, seremos tolerantes e indiferentes», lamentou Henrique Pinto. 

Crianças são as mais afetadas pelo aumento da pobreza 

Para «obrigar o Parlamento a ter que debater esta ideia», a associação vai pedir uma reunião com todos os partidos e lançar uma petição online. Enquanto isso, Tânia continuará a ir à psicóloga da instituição, onde tenta «aceitar o passado e reduzir o tabaco». É esse o seu vício. Chegou a ir à consulta anti-tabágica, mas não conseguiu seguir em frente. «Deixar de fumar não era bom para mim. Faço cigarros para conseguir aguentar», desabafa.

Tânia tem um diagnóstico de osteopenia, precursora da osteoporose. É a mesma instituição que a ajuda com os medicamentos. A família não pode, devido a problemas financeiros e de saúde. Tânia quer, mas não pode trabalhar. Tentou receber uma pensão de invalidez, que não lhe foi atribuída. Com o 8º ano, faz umas formações «que aparecem» e ganha «alguns trocos» que dão para viver: «Não digo bem, mas melhor».

O apoio que recebe de uma instituição social não é suficiente para tirar Tânia da pobreza. «Há pessoas que estão 10 anos numa organização e entram pobres e saem pobres. Queremos que as organizações ajudem mais. Há recursos, há dinheiro, que não estão a servir para apoiar as pessoas», denunciou Henrique Pinto. 

Mais de um quarto da população em privação material em 2013 

O Movimento Pobreza Ilegal defende que estas instituições, como as IPSS e as ONG, devem ser obrigadas a uma certificação e a auditorias externas ao seu funcionamento. No fundo, tratar-se-ia de «medir o impacto» do seu trabalho nas pessoas: «Há instituições que não fazem o que deviam e nós queremos obrigar as que existem a fazer o seu papel. Quando estas instituições se candidatassem a dinheiros públicos, ia ver-se se tinham reduzido ou não a pobreza das pessoas que ajudaram, justificando ou não o investimento».

O ex-presidente da CAIS conhece demasiados casos de «lares que não tratam bem os idosos e de instituições onde as crianças órfãs crescem com pouca qualidade». Henrique Pinto conhece até quem «castigue os pobres», como o exemplo de uma pessoa que ficou sem comida numa instituição porque não foi imediatamente buscar o jantar… já que estava a almoçar. Ou outro caso, de uma pessoa que foi apanhada a roubar na instituição e cujo castigo foi voltar para a rua durante uma semana. «Há organizações que não deviam existir…», constatou.

Sendo esta sexta-feira o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, a associação «IMPOSSIBLE – Passionate Happenings» lançou uma canção, com a qual pretende também angariar fundos. «Parece impossível, mas o mundo é feito de loucos e de utopias», disse Henrique Pinto à TVI24. A música «Bora Lá» é da autoria do próprio, com arranjos de Tozé Novais e produzida com jovens músicos de Seia, tentando ser «um grito vindo do interior idoso, abandonado, sem jovens, sem oportunidades». O objetivo é «criar uma onda nacional com o gesto Bora Lá». 


O ex-presidente da CAIS espera que a iniciativa ajude a combater a pobreza e, quem sabe até, a erradicá-la. «Muitos escravos sonharam com a liberdade e nem a viram. Ficarei contente se daqui a 100 ou 200 anos esta ideia se conseguir. Se a pobreza se tornasse ilegal, seríamos obrigados a erradicá-la, seríamos uma nova Humanidade, como depois da abolição da escravatura». No entanto, avisa os portugueses que «o combate à pobreza passa pela casa de cada um».

Na casa de Tânia, aliás, no quarto de Tânia, a pobreza continua. Tânia vai fazendo algum croché e está animada com as formações que está a fazer de apoio ao idoso. Pode ser que alguém lhe dê trabalho num lar. Pode ser que sim, pode ser que não. Porque sim, é possível viver com 72 euros por mês. Mas talvez não devesse ser. «Houve um tempo em que estive só fechada em casa. Depois juntei-me à CAIS, mas aquilo fez-me mal, porque fui confrontada com situações piores do que a minha. Não gosto de ver os outros mal… Preocupo-me mais com eles do que comigo».