Em 2017 já foram detidos, até esta segunda-feira, em Portugal, mais de 100 incendiários: 68 pela PJ e 34 pela GNR. Viseu e Vila Real são os distritos com mais detidos por suspeita do crime de incêndio, mas não são necessariamente os locais com mais ignições. Este ano, é também o ano em que o número de mulheres detidas por suspeita de fogo posto subiu drasticamente. 

O mapa dos incendiários detidos em Portugal permite-nos perceber que grande parte (75) das 106 detenções efetuadas, até ao momento, ocorrem no centro e norte do país. Vila Real e Viseu são os distritos recorde, com 18 e 13 detenções respetivamente, e há razões para isso.

“São distritos com uma ligação à agropastorícia muito grande, com uma exploração a nível económico da floresta, onde as detenções por dolo eventual são mais frequentes”, explicou à TVI24 o major Ricardo Alves, do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR.

A pastorícia é uma “ocupação de risco” quando falamos de incêndios. Sem que haja ainda estudos que o comprovem, a “experiência diz-nos que é uma atividade com suspeitos” que ateiam as chamas quer para a “renovação de pastagens, para que ovelhas e cabras se possam alimentar, quer para queimadas”. Nestes casos, os suspeitos são muitas vezes acusados por dolo eventual, ou seja, quem ateia o fogo sabe que vai causar danos e “conforma-se com o resultado”.

Apesar de Viseu e Vila Real serem os distritos com mais detidos por fogo posto, não são os distritos com mais ocorrências. Este ano, até 20 de agosto, Viseu contava com 1167 ocorrências e Vila Real com 966.

“Historicamente, o Porto é o distrito com mais ocorrências”, explica o major. Este ano não é exceção, e aquela região com já com 2838 ignições. “As razões aqui são diferentes. São pequenos incêndios, muitas vezes que começam em pequenas parcelas do terreno, quer por pequenas queimadas, quer por confeção de alimentos”. No Porto, até ao momento, a PJ e a GNR já detiveram 12 suspeitos.

Em Braga, as autoridades efetuaram quatro detenções, em 1391 incêndios. “Em Braga, o tipo de ordenamento do território tem muitas vezes influência. As detenções são muitas vezes por condutas negligentes (ou seja, a pessoa sabe que pode causar danos, mas não acredita que aconteça), dada a proximidade com a floresta”, adiantou.

Viana do Castelo é o único distrito sem detenções, mas é a sul do país que número de incendiários detidos mais diminui. Lisboa conta apenas com duas detenções, em Portalegre, Évora e Beja, há apenas um incendiário detido. Faro conta com quatro e Setúbal com três.

Fora do perfil: mulheres e menores

A grande maioria dos incendiários em Portugal são homens, mas as diferentes motivações para os crimes de incêndio levam a que, muitas vezes, os protagonistas sejam de sexo diferente e grupo etários distintos. Este ano, até à data, foram detidos três menores de idade. É o caso de um rapaz de 16 anos que foi detido pela GNR, pela prática do crime de incêndio florestal, na freguesia de Fortios, no concelho de Portalegre. O jovem ateou um fogo em que arderam 1,5 hectares de floresta. Acabou por ser internado compulsivamente num centro de acolhimento de menores, por decisão do tribunal.

Outro jovem de 16 anos foi detido pela presumível prática de um crime de incêndio florestal, no concelho de Vila Velha de Ródão, distrito de Castelo Branco. O detido era solteiro e estudante, sendo suspeito de ter provocado um fogo em terrenos povoados com pinheiro bravo denso. O incêndio foi ateado com um cigarro incandescente atirado para ervas secas e atas, existentes junto à sua residência

Fora do perfil de incendiário estão também as mulheres. No ano passado, foram detidas apenas duas, segundo o jornal Público, mas este ano, dos 102 incendiários detidos, segundo os dados da GNR e da PJ, 87 são homens e 15 são mulheres. No entanto, a diferença de sexo não se traduz necessariamente em diferentes motivações.

Uma agricultora de 48 anos foi detida, dia 16 de agosto, por suspeitas de ter ateado dois incêndios florestais, em Nespereira, no concelho de Cinfães, usando fósforos. Segundo a PJ, a mulher “tem aparente quadro de desequilíbrio mental”. Já em Proença-a-Nova, uma mulher, também de 48 anos, foi detida, no dia 8 de agosto, pela PJ por ter ateado um incêndio com um cigarro, “após ter ingerido bebidas alcoólicas, num quadro de desorientação emocional, face aos problemas de conflitualidade com o ex-companheiro”.

Álcool, um combustível para as chamas

Os intuitos que levam alguém a atear um fogo variam de pessoa para pessoa e até de distrito para distrito. Mas em todas as localidades, de tempos em tempos, vão surgindo motivações semelhantes e algumas vezes associadas: o álcool e o fascínio de ver arder.

Em alguns casos, que se repetem de ano para ano, são os próprios bombeiros a atear os fogos. O intuito é apenas o de poder participar nas operações de combate. Este ano, já foram detidos, pelo menos, dois bombeiros e um ex-bombeiro. Em maio, a Polícia Judiciária de Braga deteve um bombeiro, de 33 anos, suspeito de ter ateado três incêndios florestais, em Póvoa de Lanhoso, em apenas dois dias. De acordo com o comunicado, a PJ acrescenta que o suspeito terá ateado três focos de incêndio, “para depois dar o alerta e proceder ao seu combate, visto integrar, há cerca de meio ano, o corpo de bombeiros”.

Em Silves, no fim de julho, foi também detido um ex-bombeiro, de 37 anos. Atuava de madrugada, sempre na mesma zona, a menos de um quilómetro do sítio onde trabalhava e do qual se demitiu por incompatibilidades com a empresa. O suspeito esteve em reconstituições feitas pela polícia e acabou por confessar a autoria de pelo menos três fogos.

Muitos dos incendiários portugueses não agem por razões económicas, mas por motivos fúteis que indiciam uma mente perturbada, como o facto de gostarem do “espetáculo” do incêndio. Da informação prestada pelas autoridades em comunicado, pelo menos cinco dos incendiários detidos agiram por se sentirem atraídos pelo fogo e pelas chamas. É o caso de um homem, de 51 anos, que foi detido por ser suspeito de ter ateado cinco fogos no concelho de Santa Comba Dão, nos dias 8, 9 e 11 de julho. De acordo com a PJ, “o suspeito ateou os incêndios por gostar de ver os bombeiros a combater a chamas”.

Casos que apontam para uma ligação entre os fogos e as perturbações mentais.

“Aquilo que constatamos é que no perfil dos indivíduos incendiários há uma percentagem importante: cerca de metade que tem patologia psiquiátrica. É bastante frequente haver no crime de incêndio indivíduos com doença mental”, declarou, na TVI24, a psiquiatra forense, Sofia Brissos, que lembra também que a “grande maioria” tem um atraso mental ligeiro, associado ao alcoolismo.

Quando falamos de álcool, os números conhecidos até ao momento crescem. Das detenções efetuadas este ano, das quais é dada informação sobre motivações, até ao momento, foram registados, pelo menos, 12 casos de pessoas que estavam sob o efeito do álcool quando atearam as chamas. É o caso de uma mulher, de 80 anos, que foi detida por suspeitas de ter ateado um incêndio florestal, em abril, em Arrancada do Vouga, no concelho de Águeda. De acordo com a investigação, a idosa terá agido "num quadro de alcoolismo". Já em Castelo de Paiva, um homem de 45 anos foi detido por alegadamente ter ateado um incêndio florestal, com recurso a um isqueiro, sob o efeito do álcool.