Mentira! Com todas as letras, a jornalista Ana Leal - autora das reportagens "Compadrio", sobre a aplicação irregular de verbas no processo de reconstrução de casas em Pedrógão Grande, após o incêndio de junho do ano passado - desafiou o presidente da câmara local, Valdemar Alves, a "mostrar todo os processos, perante o país. Porque mentiu!".

O senhor presidente sabe que todos os processos foram validados por ele. Por exemplo, o presidente da Junta de Freguesia da Graça recebeu financiamento para a casa da sogra, que vivia com ele. E apresentaram a factura da eletricidade da casa do próprio presidente. E não considera isto uma irregularidade. É o tal compadrio, porque isto consta em processos que ele assinou por baixo", relatou a jornalista no Jornal das 8 da TVI e, posteriormente, no debate sobre a reconstrução em Pedrógão Grande, realizado na TVI24.

O que me chocou foi ver deputados da oposição, que viram as denúncias da TVI, e nada disseram na Assembleia Municipal. Pergunto o que estiveram a fazer na assembleia municipal extraordinária. É o compadrio entre o PS e o PSD. E depois, vem o presidente da câmara, pelos vistos como voz das duas bancadas, dizer que nada existiu", continuou Ana Leal.

Em defesa dos sociais-democratas, Duarte Marques, deputado e natural de Mação, outro concelho fustigado pelo fogo no verão de 2017, advogou que, "ainda antes da TVI fazer esta reportagem, o caso foi denunciado pelos deputados do PSD na Assembleia da República, com várias perguntas ao Governo, a questionar a transparência do fundo REVITA.

Compadrio, não aceito e rejeito! Os deputados municipais não estão a tempo inteiro e a gestão dos processos passou pelo executivo. Os eleitos da oposição não têm essas informação", defendeu Duarte Marques, lembrando que os sociais-democratas de Pedrógão "fizeram um comunicado" relativamente à assembleia muncipal extraordinária realizada na segunda-feira.

Para Duarte Marques, "aquilo que me dizem da assembleia municipal, é que os eleitos do PSD, se foram demasiado brandos, a única coisa que ficou sobre o presidente da Câmara é que não houve aproveitamento pessoal" da parte de Valdemar Alves, autarca, agora eleito pelo PS, depois de o ter sido pelo PSD, em eleições passadas.

O deputado do PSD considerou que "houve coação face a Pedrógão e toda a gente quis facilitar tudo", mas defende que não se deverá "culpar as pessoas que se aproveitaram disso, porque acho que foram os próprios responsáveis que dizerem para fazer assim".

Isto é um forró. Foi sem rei, nem roque, a gestão dos fundos. Houve facilitismo das autoridades porque o Estado tinha noção das suas responsabilidades e as pessoas foram levadas a fazer este tipo de irregularidades", afirmou Duarte Marques.

"Problema não está em Pedrógão"

Presente no debate sobre as irregularidades na reconstrução, o arquitecto Vítor Reis considerou que "o problema não está em Pedrógão, mas em Lisboa, por quem afastou o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana - do qual foi presidente - do processo, algo que nunca tinha acontecido".

Ao afastar o Instituto criaram um gigantesco buraco legal, entregando o processo a quem não tem competência para tal. Tudo isto está ser conduzido sem profissionalismo", expôs Vítor Reis.

Para Vítor Reis, tudo isto está a ser feito de qualquer maneira, em cima do joelho, e expressão compadrio é perfeitamente adequada", até porque, "o que está em causa é reconstruir habitação que pode ser uma casa abandonada, que podemos ver no Google, em 2012, e dizerem-nos o contrário".

O que é avassalador em Pedrógão é verificar que quem detém o poder na Câmara está a usar um processo de chantagem, dizendo que se está a por em causa o bom nome da terra, numa tentativa de fazer com que as pessoas se calem", acusou Vítor Reis.

Desde "casas que estavam abandonadas e que não arderam", outras, que "estavam em ruínas e o incêndio encarregou-se de as deitar abaixo", surgem agora "como de primeira habitação", relatou o ex-presidente do Instituto de Habitação, organismo que deveria voltara  liderar o processo de reconstrução "porque nunca é tarde para endireitar e por este comboio nos carris".

Não tenho noção das irregularidades que existem. Mas vejo muitas pessoas com medo de falar, porque não querem que nome da sua terra fique mal visto. Ora, o nome já está conspurcado. E ver a explosão de generosidade que houve no país, para agora assistir a este processo... Esta é a segunda catástrofe de Pedrógão Grande: o bom nome, a solidariedade de tantos portugueses", afirmou Vítor Reis.

O arquiteto assinala, contudo, que, com o processo como está a ser conduzido, "uma casa reconstruída pode a seguir ser vendida, sem que o proprietário preste contas a quem quer que seja, devido ao buraco legal que Govermo criou".

No reverso da moeda, havendo quem ficou com casas novas que antes nem habitava, fica "senhora que ainda vivia numa casa alugada pela Segurança Social, precisamente porque a sua primeira habitação ainda não estava concluída, mais de um ano depois", recordou a jornalista Ana Leal.

As noticias que trago - coitada da dona Adelaide! - é que ainda continua à espera que a sua casa esteja pronta", concluiu.

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