António (nome fictício) esteve mais de 16 horas no terreno. Naquele final de dia quente de junho, ainda antes das oito da noite, não poderia imaginar que iria, poucas horas depois, salvar idosos, pelo menos uma criança, evitar uma segunda “estrada da morte” e ser a primeira autoridade a chegar à EN 236. O Comandante de Agrupamento Distrital da Proteção Civil (CADIS) foi o homem a quem o Comando Nacional pediu para sair e perceber o tamanho das chamas que ameaçavam o centro do país.

O pedido para ir para o terreno chegou pelas 19:58, minutos antes das chamas chegarem à Nacional 236. António (nome fictício) não sabia, não poderia saber da tragédia que se desenhava ali perto, e saiu. Acompanhado por José (nome fictício) e André (nome fictício), bombeiros da Força Especial e membros da Equipa de Reconhecimento e Avaliação da Situação, foram, de Predrógão Grande, num 4x4 em direção à Nacional 350, que liga Leiria a Oleiros, em Castelo Branco, e passa por Figueiró dos Vinhos.

O percurso do comandante da Proteção Civil e da equipa faz parte dos pormenores revelados no capítulo 6 do relatório sobre os incêndios elaborado pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra e que Comissão Nacional de Protecção de Dados proibiu a divulgação.

EN 350, a segunda “estrada da morte” que quase aconteceu

O objetivo era “apanhar as estradas municipais, subir pela [freguesia] Graça para tentar ver a frente do fogo”.  O caminho foi feito e é ao chegar ao Alto que percebem que as chamas já tinham cortado a estrada e perto do fogo estavam vários carros parados. A reação foi imediata e António (nome fictício) toma a decisão de tirar de lá as viaturas, porque o mais certo era ficarem “encurralados”. O alerta chegou ao Posto de Comando, a quem é pedido o corte rápido daquela via.

Os três homens vão então em direção ao aglomerado de carros e António (nome fictício) dá ordem para que saiam do local, ajudando mesmo alguns condutores a fazerem inversão de marcha e a “saírem pelo caminho possível”.

“A estrada estava aberta, mas as pessoas estavam desorientadas, isto seria pelas 20:15.”

Não é certo quantas pessoas foram ali salvas, como também não é certo o que teria acontecido se ali ficassem. O caminho continuou pela saída possível, o IC8, em direção ao nó de Outão, onde António (nome fictício), apesar do fumo intenso que os obrigava a ir devagar, a 20 km/h, consegue distinguir uma criança caída no chão, no asfalto.

“Havia fogo em ambos os lados da estrada. A criança estava inconsciente e tinha queimaduras na parte posterior do braço e nas pernas também. Estava de calções, t-shirt e sandálias”, lê-se no relatório.

A equipa pede socorro para a criança, que estava também com problemas respiratórios, mas já não obtém resposta do Posto de Comando. O comandante distrital decide fazer o percurso inverso e regressa a Pedrógão Grande, onde, depois de uma hora, é finalmente prestada assistência ao menino. Pelo caminho, olha e vê as localidades que já tinham sido tomadas pelas chamas.

Pelas dez da noite, chega nova ordem do Comando Nacional da Protecção Civil. O destino agora era Vila Facaia, pela EN 236. O caminho é feito com “tudo a arder em redor”. Chegam à  Barraca da Boavista, uma pequena povoação de Vila Facaia que sobreviveu aos incêndios sem danos de maior e vítimas mortais.

Uma localidade que poderia ter tido uma outra história para contar não fosse a ação dos três homens, que encontraram numa garagem “4 ou 5 idosos, um deles com queimaduras no braço direito”. É pedido socorro e chegam algumas ambulâncias que em direção a outro grupo de heróis: os bombeiros de Castanheira da Pêra, que tiveram um acidente e acabaram queimados ao tentarem salvar vítimas dos incêndios. Um dos bombeiros, Gonçalo Correia, acabou por morrer.

A chegada à “estrada da morte”

Na realidade, a equipa de reconhecimento já circulava na Nacional 236, mas estava ainda longe de imaginar o que iria encontrar. O primeiro alerta chega do próprio Comandante Nacional, que, já depois das 22:00, pede aos três homens para continuarem naquela via, uma vez que “haveria lá problemas”.

Ao início da estrada encontram um pinheiro caído que impedia a passagem. O carro fica parado e é a pé pela estrada que António, José e André (nomes fictícios) começam a encontrar o cenário macabro.

Junto ao pinheiro estava o primeiro corpo.

“Aqui começa todo o procedimento de levantamento dos corpos que iam vendo”, especifica o relatório.

O caminho aterrador levou-os aos carros queimados, acidentados. Lá dentro estavam as vítimas, a maioria pelo menos. Em alguns casos foi possível identificar os cadáveres, noutros não. 

“Nesse troço contaram 19 ou 20 corpos e fizeram essa comunicação, uma vez que não conseguiram falar diretamente para o Posto de Comando Operacional (não tinham rede telemóvel e o SIRESP também não permitia fazer isso) fizeram essa comunicação para Lisboa, via rádio. Trocaram de canal, ligaram o canal nacional e passaram essa informação para o Comando Nacional; quem estivesse via rádio naquele canal ouviria a conversa. Passaram a informação de onde estavam (passaram as coordenadas), o cenário que tinham encontrado até ali e o número de vítimas mortais que já tinha conseguido contabilizar”, lê-se no documento divulgado.

Pelas 22:30 já não havia nada. Nem fogo nos carros. Só o fumo dava sinal de tragédia. Ali, áquela hora já não passava ninguém. Passaram-se quinze longos minutos e surge então uma patrulha da GNR e depois algumas ambulâncias que queriam passar e não conseguiam. No testemunho que dá à Universidade de Coimbra, o comandante distrital deixa claro que os únicos meios de combate que encontrou foram os bombeiros de Castanheira da Pêra.

A história de António, José e André, (nomes fictícios) que nas primeiras horas da noite foi de vida, começou na Nacional 236 a ser uma história de morte. Os três homens ainda salvam mais uma mulher que estava junto a dois corpos, sem reação e com queimaduras na mão, mas a partir deste momento a missão passa a ser de contar e ver. Contar os mortos, ver a terra queimada.

António (nome fictício) descobriu mortos em Nodeirinho e em Pobrais. Contou e indentificou vítimas durante toda a noite e manhã de dia 18.

Ao meio-dia, entregaram todo o material recolhido no Posto de Comando Operacional.

António informou que estava “exausto e que tinha que ir embora”.

“A missão estava concluída”.

Nota: Os nomes dos sobreviventes no relatório estão omitidos para preservação da indentidade das vítimas e por isso os nomes atribuídos neste artigo são fictícios.