A entidade operadora do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal garante que o SIRESP não falhou e "esteve à altura" da complexidade do incêndio de Pedrógão Grande, mas o mesmo entendimento não têm os bombeiros daquele município de Leiria, bem como dos vizinhos Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, todos afetados pelo trágico fogo, que vitimou 64 pessoas e causou mais de 200 feridos.

É lógico que houve falhas", afirmou o comandante dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera, José Domingues, reagindo ao relatório de desempenho, que concluiu que "não houve interrupções no funcionamento da rede" de comunicações apesar de se terem registado "situações de saturação".

Segundo o comandante de Castanheira de Pera, terá havido "sobrecarga" dos canais ou a própria "falha das redes" levou às dificuldades de comunicação.

Só ao fim de quatro, cinco ou seis insistências é que conseguíamos comunicar com os operacionais ou com o posto de comando", frisou José Domingues, lembrando que o sistema devia estar preparado para a quantidade de comunicações realizadas durante o combate às chamas que afetaram o interior norte do distrito de Leiria.

As mesmas falhas identificou o comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut.

Eu já reportei a quem de direito. Passados dois dias, reportei a quem de direito", afirmou o comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, insistindo que "houve falhas".

Este responsável não se quis alongar mais em considerações sobre o funcionamento do SIRESP, limitando-se a reafirmar que reportou a situação "a quem de direito".

Também o comandante dos Bombeiros de Figueiró dos Vinhos afirmou hoje que, desde que o SIRESP foi criado, que se alertou para falta de cobertura da rede em determinadas zonas daquele concelho, situação que nunca foi retificada.

Paulo Nogueira sublinhou ainda que houve sobrecarga dos canais de comunicações, especialmente "nos canais de manobra" e não tanto nos de comando.

Apesar de ter sido um teatro de operações extenso e com muitos operacionais no terreno, o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) "devia estar preparado" para uma situação como aquela que se viveu no passado dia 17.

Paulo Nogueira frisou ainda que há várias zonas de difícil acesso no concelho que "não estão cobertas pelo SIRESP".

Essas "zonas sombra" foram identificadas "desde que o SIRESP foi criado", mas a situação nunca foi "retificada", apontou.

O relatório de desempenho do SIRESP é também contrariado pela ‘fita do tempo' das comunicações registadas pela Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC), que revelou falhas "quase por completo" nas primeiras horas do incêndio em Pedrógão Grande, "impedindo a ajuda às populações".

A ‘fita do tempo' "resulta do Sistema de Apoio à Decisão Operacional (SADO) da ANPC, uma espécie de ‘caixa negra' que permite registar a sequência ordenada dos principais acontecimentos e decisões operacionais.

Os registos foram disponibilizados ao primeiro-ministro no dia 23, um dia depois de a ANPC ter enviado a António Costa as primeiras explicações sobre as falhas nos incêndios.

O primeiro registo da ‘fita do tempo' é das 19:45 de sábado, hora em que começaram os problemas na rede de comunicações.

Segundo esta, foi nestas primeiras horas que existiram vários pedidos de ajuda de pessoas cercadas pelo fogo, a que os comandos operacionais não conseguiram dar resposta imediata, devido às falhas nas comunicações.