Um bombeiro sempre em ação. Assim é o 2º comandante Joaquim Oliveira, da corporação de Guimarães. Graças a essa dedicação, presente em cada um dos momentos do seu dia a dia, o bombeiro arriscou-se para salvar um jovem, ainda com tanto para viver, numa sexta-feira que se previa sem sobressaltos.

O relógio do seu automóvel já passava das 16 horas, quando Joaquim conduzia pela estrada N206. Aquele 15 de abril de 2016 era dia de trabalho, após a visita a um cliente: afinal, Joaquim é comercial de têxteis, uma ocupação que conjuga com a função de bombeiro voluntário.

Estava a chover, quando o 2º comandante atravessava a ponte que une as freguesias de Silvares e Brito, em Guimarães, e o seu percurso foi perturbado por um estranho acontecimento: alarmados, muitos populares não saíam da ponte e apontavam para o rio Ave. “Ele atirou-se! Ele atirou-se!”, gritavam.

Mesmo sem a sua farda vermelha, Joaquim colocou o dever de bombeiro acima de tudo e, num ímpeto, interrompeu a sua rotina de sexta-feira, estacionou o carro e foi a correr para a margem do rio, atravessando uma densa vegetação. Foi dali – a uma distância de uns 5 metros – que o bombeiro avistou um vulto que, passados uns segundos, se transformou num rapaz moreno, magro e “bem tratado”, com os seus 13 ou 15 anos, que, assustado, somente lutava pela vida, agarrando-se a um ramo.

Durante uns 5 a 10 minutos, Joaquim não saiu da beira do rio: “Tenha calma e coragem. Nunca largue o ramo, ouviu? Nunca largue o ramo! Eu sou bombeiro, vou ajudá-lo a sair daí!”, dizia ao adolescente aflito.

Aquela era uma luta contra o tempo. Quanto mais os minutos passavam, mais Joaquim constatava que André – assim se chama o rapaz – perdia as suas forças. Bastou um instante, um milésimo de segundo para o bombeiro agir, antes que chegasse a ajuda – foi um olhar de que Joaquim provavelmente nunca mais se irá esquecer. Um olhar de desespero do jovem, que estava prestes a ser levado pelas fortes correntes.

Não havia tempo a perder. Joaquim pediu uma corda e um cinto aos populares, despiu-se, colocou o cinto à volta do peito e atou a corda a esse acessório. Lançou-se à água.

Um improviso que valeu uma vida

A temperatura gélida do rio e as suas pedras e vegetação não impediram que Joaquim nadasse rapidamente até André. Quando chegou ao pé do jovem, o bombeiro entrelaçou logo as suas pernas nas dele: “Nesse momento, senti que o rapaz ficou mais tranquilo”, recorda.

Embora estivesse fraco, com um evidente risco de hipotermia, o adolescente ainda conseguiu trocar algumas palavras com o 2º comandante: “Ele respondia às minhas tentativas para lhe dar ânimo até a ajuda chegar. Também lhe perguntei se sabia nadar e respondeu afirmativamente. Naqueles 4 ou 5 minutos, ainda falámos sobre outras coisas… mas isso ficará para sempre entre mim e o rapaz”.

Como o tempo passava e a ajuda não chegava, André estava a começar a enfraquecer ainda mais. Joaquim decidiu improvisar: pôs o seu cinto, com a corda, à volta do peito da vítima, largou-a e contou com a ajuda de uma dezena de populares e da GNR, que puxaram André até à margem. Rapidamente – e sem contratempos – o rapaz já estava em terra firme e recebia assistência médica.

Joaquim ficou sozinho, junto do ramo que tinha valido a sobrevivência do rapaz durante preciosos instantes. Enquanto a ajuda para o seu resgate não chegava, ao longo de uns 10 minutos, um único pensamento o inquietava: como estaria André.

Entretanto, a equipa de Grande Ângulo da própria corporação de Guimarães chegou ao local. Após constatar que a vítima já estava em segurança, os operacionais apenas se preocuparam em resgatar o 2º comandante, lançando uma corda e recorrendo a uma escada.

Depois de, por precaução, colocar a corda à volta do peito, Joaquim nadou até à escada através da qual subiu para a margem, com a ajuda dos seus camaradas. Em pouco tempo, também já estava completamente a salvo, sofrendo somente de umas escoriações nos braços e pernas, além de sentir algum frio: “Foi uma ironia ter sido resgatado pelo grupo de Grande Ângulo ao qual eu próprio pertenço. Este também é um bom exemplo da capacidade de os bombeiros de Guimarães em agirem de forma adequada neste tipo de salvamentos”.

Para evitar que Joaquim sofresse de um sério quadro de hipotermia, os seus colegas colocaram uns agasalhos sobre o 2º comandante, que recuperou do intenso frio dentro de uma viatura dos bombeiros, com o ar condicionado ligado.

Já André acabou por ser transportado para o Hospital Senhora da Oliveira. E Joaquim nunca mais voltou a ver o adolescente cuja vida salvou: “Passado mais de 1 ano, sinto que este é, sem dúvida, um caso que me marcou bastante. Por isso mesmo, tenho pena de nunca mais ter sabido nada do rapaz. Não sei se está bem ou não. Não tenho contacto com ele, nem com os familiares. Nada”.

Ser bombeiro transformou-se numa grande paixão

A capacidade de improvisar numa situação tão arriscada e tensa resulta de 36 anos de experiência como bombeiro voluntário. Ao longo de três décadas e meia, Joaquim foi compondo uma folha de serviços repleta de louvores e condecorações que sublinham algumas qualidades que são imprescindíveis para qualquer bombeiro: assiduidade, coragem e abnegação são somente alguns dos exemplos.

O 2º comandante iniciou o seu percurso nos bombeiros aos 18 anos como auxiliar aspirante. O gosto por este trabalho foi-se solidificando no decorrer destes quase 40 anos: “Ainda me lembro do dia em que me inscrevi nos bombeiros. Tudo aconteceu de uma forma muito fortuita. Nem tinha dito nada a ninguém da família. É algo por que eu comecei a ter algum interesse e, depois, se transformou numa grande paixão”.

No seu percurso, têm-se acumulado casos marcantes. Além do “jovem do rio”, Joaquim recorda-se de uma outra situação impactante. Foi, inclusive, o primeiro caso que o marcou profundamente, quando somente tinha 2 ou 3 anos de experiência: “Era uma miúda que tinha inalado monóxido de carbono, numa casa de banho. O esquentador estava dentro dessa divisão e encontrava-se ligado. Enfim, eu fiz tudo o que podia: respiração boca-a-boca, reanimações cardiorrespiratórias… E consegui que ela chegasse com vida até ao hospital. Porém, após 3 dias, acabou por falecer. Mas senti que fiz o que devia ser feito. Deu-me mais força para continuar a ser bombeiro”.

Durante estes 36 anos, Joaquim tem sentido uma evolução positiva no trabalho dos bombeiros: “Pelo menos em Guimarães, sinto que existe uma maior formação e até melhores equipamentos para os incêndios urbanos, industriais e florestais”, sublinha.

Mesmo assim, o 2º comandante reconhece que, por vezes, faltam algumas infraestruturas para completar o equipamento da corporação. Por exemplo, atualmente, os bombeiros de Guimarães precisam de uma nova escada de resgate de Grande Ângulo: “A verdade é que temos de nos adaptar à evolução da própria cidade de Guimarães e, por isso, precisamos de uma escada que tenha mais metros de altura para corresponder aos edifícios cada vez mais elevados desta região”.

Comunidade de Guimarães mobiliza-se em prol dos bombeiros

Na opinião de Joaquim Oliveira, a relação próxima com a comunidade é um dos pontos fortes da corporação de Guimarães: “De há uns dez anos para cá, sinto que desenvolvemos uma ligação mais estreita com os cidadãos. Há casos de mobilização que até chegam a ser comoventes. Por exemplo, há dois anos, fizemos uma campanha de sensibilização junto da população para comprar uma ambulância. Ao fim de três meses, conseguimos comprar duas!”.

Para concretizar estas e outras metas tão relevantes para melhorar o trabalho dos bombeiros portugueses, o Grupo Mosqueteiros (que detém os espaços Intermarché, Bricomarché e Roady), em parceria com a Liga dos Bombeiros Portugueses, lançou o livro “Bombeiro dos pés à cabeça”, especialmente escrito para o público infantil e que transmite mensagens bastante importantes, relacionadas com a prevenção de incêndios e não só.

Com um preço de 1.99 euros, o livro tem prefácio de Isabel Silva (embaixadora da campanha, juntamente com Manuel Luís Goucha) e está à venda em todo o país nos espaços Intermarché, Bricomarché e Roady até ao próximo dia 31. As receitas revertem para a compra de equipamentos.