Maria Nobre Franco, ex-diretora do museu Berardo, em Sintra, morreu na madrugada desta terça-feira, em Cascais, aos 77 anos, vítima de doença prolongada, segundo informou a família em comunicado.

"Foi uma amiga que me ajudou muito. A primeira exposição da minha coleção, em 1993, foi na sua galeria [Valentim de Carvalho], foi a diretora do museu em Sintra e foi consultora para muitas coisas que fiz na minha vida", comentou, em declarações à agência Lusa, o empresário José Berardo.


Maria Nobre Franco nasceu em 1938, em Messejana, Alentejo, e foi diretora do Sintra Museu de Arte Moderna - Coleção Berardo desde a sua inauguração, em 1997, até à criação, em 2008, do Museu Coleção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

"Vou ter uma grande saudade", acrescentou o colecionador de arte moderna, que salientou o papel desempenhado pela "grande amiga" na divulgação da cultura e das artes.


A coleção de arte moderna do empresário madeirense foi apresentada pela primeira vez na Galeria Valentim de Carvalho, em Lisboa, espaço fundado e dirigido por Maria Nobre Franco entre 1984 e 1994.

"Uma referência fundamental da arte portuguesa nas várias declinações da sua atividade como galerista, diretora de museu, administradora e amiga, muito próxima dos artistas com quem trabalhou ao longo da vida", descreve a nota divulgada pela família.


A galerista, licenciada em Filologia Clássica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, frequentou o curso de Pierre Francastel, na Sorbonne, Paris, onde optou por viver após ser presa pela PIDE, polícia política da ditadura, por assinar uma carta dirigida ao presidente do Governo Oliveira Salazar, num protesto pelo assassinato do pintor José Dias Coelho, numa rua de Lisboa.

Na capital francesa, entre 1962 e 1965, foi redatora e locutora nas Émissions vers l'Étranger (da O.R.T.F.) e contactou com a escritora Maria Lamas e António José Saraiva, então investigador do Centre National de Recherche Scientifique.

Depois de regressar a Portugal, trabalhou em publicidade e, em 1984, fundou a galeria EMI Valentim de Carvalho, com o marido, o editor discográfico Rui Valentim de Carvalho, que faleceu em 2013.

O espaço no Palácio das Alcáçovas, inaugurado com uma exposição de Vieira da Silva e Arpad Szenes, contribuiu para a divulgação de muitos artistas portugueses, como Helena Almeida, Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa, Joaquim Bravo, Jorge Martins, António Palolo ou Alberto Carneiro, segundo a nota da família.

A galeria, sob a sua direção, serviu ainda para revelar artistas "em início de percurso como Rui Sanches, José Pedro Croft e Pedro Calapez", ou Ana Jotta, Xana e o Grupo Homeostético, assim como a pintura de William Burroughs.

Nos dez anos na direção do Sintra Museu de Arte Moderna - Coleção Berardo, contribuiu para o prestígio da coleção, "abrindo-a a artistas portugueses que, em grande parte por sua influência, a vieram a integrar", salientam os familiares.

Após a transferência da coleção para o CCB, Maria Nobre Franco assumiu a administração da Fundação Arpad Szenes/Vieira da Silva, desde 2008, em representação da Câmara de Lisboa, e foi administradora da Fundação Júlio Pomar, entre 2004 e 2013.

A paixão pela arte estendeu-se ao cinema, ajudando cineastas do Cinema Novo, nas décadas de 1960 e 1970, como Fernando Lopes, realizador de "Belarmino" e "Uma abelha na chuva".

Maria Nobre Franco, mãe do cineasta Bruno de Almeida, foi condecorada pelo Presidente da República Jorge Sampaio, com a Ordem do Infante D. Henrique.

A galerista morreu vítima de cancro, de acordo com a família, e o velório realiza-se a partir das 18:00 de hoje, na Basílica da Estrela, em Lisboa. O funeral segue na quarta-feira para o Alentejo, após missa celebrada, às 13:30, pelo padre Tolentino Mendonça.