Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), visitou em 1995 o lar da instituição em Camarate, onde viviam os três irmãos Vera, Luís e Fábio, e escolheu as crianças para a sua filha Viviane, cujo marido não podia ter filhos, por ter feito a vasectomia que Edir tinha exigido.

“Recordo-me do Edir Macedo ir visitar o lar. Estava lá o Luís e a Vera e as crianças lá, quando apareciam pessoas estranhas ou diferentes, que não eram de lá, agarravam-se a essas pessoas. O Edir vira-se para a Ester [esposa] e diz: ‘Aqui estão umas crianças boas para o Júlio e a Viviane’. E então começaram a brincar com as crianças, a tentar conhecer as crianças”, contou à TVI “Ana” (nome fictício), ex-funcionária do lar e babysitter.

O bispo Edir levou então fotografias das crianças para a Califórnia, para a filha Viviane aprovar a escolha. Recorde-se que, já na lei da época, era proibido os casais escolherem as crianças que queriam adotar.

O ex-bispo da IURD Alfredo Paulo confirma que a família de Edir Macedo adotou em Portugal, “aproveitando-se do facto da IURD ter acesso ao lar das crianças”. “Essas crianças foram adotadas no lar e não seguiram os trâmites que deveriam seguir”, assegurou.

Após a escolha, para afastar “Maria”, a mãe biológica de Vera, Luís e Fábio, era preciso construir uma “história”. Uma história que a Santa Casa da Misericórdia fizesse chegar ao Tribunal de Família e Menores e que levasse a que estas crianças ficassem libertas rapidamente para a adoção.

Foi fácil: o Lar da Universal desacreditou esta mãe, apelidando-a de seropositiva e toxicodependente, sem que nunca lhe fosse feita uma análise sanguínea. Hoje em dia, “Maria” é dadora de sangue, o que seria impossível caso alguma vez tivesse sido toxicodepente. Ou seropostiva, claro.

Afastar “Maria” era essencial para que se cumprisse a vontade de Edir Macedo: levar aquelas crianças para os Estados Unidos para a filha Viviane.

Desacreditada, enganada, “Maria” era constantemente impedida de visitar os seus filhos. Depois de os ver poucas vezes no Lar da IURD, as desculpas tornaram-se um hábito: os filhos não estavam porque tinham ido passar o fim-de-semana com uma funcionária ou porque tinham outras atividades. Certo é que “Maria” assinou o livro de visitas apenas uma vez: um livro que desaparecia de cada vez que “Maria” chegava à porta do Lar. O livro de visitas é fundamental para atestar do interesse dos pais pelos filhos. Se os pais biológicos não o assinassem durante seis meses, as crianças ficavam disponíveis para adoção.

"Naquela altura, era-nos dito que os pais não podiam assinar o livro. Era negado, não tínhamos ordem para dar o livro aos pais", garante à TVI "Ana", ex-funcionária do lar.

E “Maria” nunca os abandonou. Chegou a ir à polícia para que a ajudassem. Um pedido sem efeito. “Maria” deixou de conseguir ver os seus filhos e numa foi ouvida em tribunal, conforme mandava a lei.

Num ápice, estava provada a tese de abandono e rapidamente o Lar sugeriu que uma pessoa ficasse com a guarda das crianças; uma pessoa que diziam ter uma relação com estes irmãos; uma pessoa que mal os conhecia e que tinha uma única missão: levá-los para os Estados Unidos e entregá-los à filha do bispo Edir Macedo. E assim fez, mesmo que não houvesse autorização para que vivessem fora do país e o tribunal continuasse a permitir as visitas dos pais.

Ao longo dos próximos episódios, será fácil perceber que no Lar da IURD não há regras.

E que a vontade da família se sobrepõe. Com um marido vasectomizado, sem filhos, Viviane recorre à adoção – o que se torna imperativo para todos os bispos e pastores. Mas nem Viviane nem o marido, Júlio Freitas, tinham idade para adotar ou residência em Portugal. Foi preciso colocar à frente desta operação uma pessoa que se tornará fundamental nesta história. E que, no próximo episódios de “O Segredo dos Deuses”, vamos revelar.