Cerca de meia centena de professores e investigadores universitários juntou-se hoje no Ministério da Educação contra o que apelidou de «falta de respeito constitucional» e alertando para a «tempestade» nas Universidades que se aproxima.

«A situação que se está a criar é a médio prazo de tempestade perfeita. Cortes de financiamento elevadíssimos neste momento, envelhecimento da população científica portuguesa, fuga de parte de investigadores estrangeiros porque não veem futuro neste país, emigração de alguns quadros que não encontram emprego científico em Portugal. Isto não serve a ninguém, não serve a Portugal», alertou o professor José Emílio Ribeiro.

José Emílio Ribeiro pertence ao conselho geral da Universidade de Lisboa e é investigador-coordenador do Instituto Superior Técnico. Ele e outros docentes deixaram no Ministério uma oferta para o ministro Nuno Crato, uma calculadora, para ajudar o Governo a fazer contas e rever os cortes orçamentais no ensino superior.

E com a calculadora (simbólica, em cartão, mas dentro da qual estava uma real máquina de calcular) foi entregue também uma carta.

«A carta é de alerta, ao ministro e ao Governo, de que deve de tratar a Universidade portuguesa de forma a permitir que cumpra o seu papel constitucional», que neste momento é difícil de cumprir, disse José Emílio Ribeiro.

De acordo com o responsável a ação de hoje não é contra ninguém, mas apenas um apelo ao bom senso e um alerta. Para a situação difícil das Universidades, para um excesso de cortes que se eleva a 42 milhões de euros, depois de uma «via sacra» de outros cortes, para consequências que não são benéficas a médio prazo.

É o abaixamento da produtividade científica, é uma diminuição da inserção de Portugal no mundo internacional da ciência e tecnologia, é o desencanto e a saída de pessoas para o estrangeiro, nas palavras de José Emílio Ribeiro, para quem assim a Universidade não consegue ajudar o país a sair do «estado de soberania exígua» em que está.

Numa carta entregue com a calculadora os docentes e investigadores salientam mesmo que quando se procura «ganhar a batalha das exportações», o que passa pela melhoria da competitividade tecnológica das empresas, e quando se procura fortalecer a ciência na cultura e a internacionalização do ensino superior, «não se percebe que se descapitalize a Universidade ao ponto do não funcionamento».

A carta foi assinada por cinco centenas de professores e investigadores e a calculadora é muito simples, para que Nuno Crato possa comprovar que «o corte foi o dobro do expectável», como disse João Cunha Serra, outro professor também do Instituto Superior Técnico.

A somar a isso uma única faixa, assim escrita: «Sr. Ministro: Faça bem as contas! Corrija um erro de matemática». E um aviso solene: «A Universidade proclama que a continuar-se este caminho deixará de ter condições objetivas para contribuir para o desenvolvimento da investigação e desenvolvimento do país».