Héli Camarinha partiu para o Nepal à procura de uma nova experiência de vida. O destino levou-o ao maior terramoto no país nos últimos 80 anos e para “uma das maiores experiências” de vida. O algarvio viveu os momentos de pânico ao lado dos nepaleses com “tudo a tremer” e “prédios a cair”, mas apesar do susto já decidiu ficar e ajudar.
 
“Estava a fazer o check-out do hostel quando oiço o grande estrondo. A primeira coisa que me veio à cabeça foi um grande acidente na rua. O hostel estava mesmo próximo da estrada”, começou por contar à TVI24 o português de 28 anos.
 

“Começou tudo a tremer, o meu pensamento foi sair daquela situação onde me encontrava e desci para o rés-do-chão. Foi complicado descer porque tudo abanava, muito forte, e partes do prédio caíam. Encontrei a minha zona de segurança, onde permaneciam alguns dos clientes do hostel, e permanecemos lá durante uma hora até tudo acalmar”, descreveu Héli Camarinha, que chegou ao país no dia antes ao sismo que já fez quase quatro mil mortos.

 
O português que viveu os últimos três anos na Austrália descreve o cenário que encontrou quando, depois do susto, saiu para as ruas, ainda que com a ameaça de várias réplicas.
 

“Apercebi-me de que alguns templos tinham sido completamente destruídos. Foi o choque. O Nepal é bastante movimentado e de repente as ruas estavam praticamente desertas, via-se pânico no rosto das pessoas que se dirigiam aos sítios onde tinha existido a destruição”, conta, lembrando que não havia eletricidade e que teve de partir para rua em busca de alguma comida.

 
Perante o cenário devastador, Héli destaca a bondade do povo que partilha o pouco que tem. Talvez por isso, o jovem português sentiu “simplesmente” que tinha de retribuir.
 

“Apercebi-me nessa manhã o quão grave era a situação e senti vontade de simplesmente  poder contribuir para ajudar a população. Dirigi-me para o hospital mais próximo, no qual não estavam a precisar de ajuda de momento», explicou. «Mas indicaram-me o hospital principal, onde de facto existam vários casos. Aí, sim, precisavam da minha ajuda e dei o meu contributo durante essa manhã.” 

 
Chegado ao hospital, o português conta que ajudou em “coisas bastantes simples, desde limpar o chão, levar o lixo para fora, ou carregar as macas para níveis superiores". "As zonas de raio-x eram uma área onde precisavam realmente de muita ajuda para colocar os pacientes nas mesas”, descreveu, acrescentando que o serviço no hospital estava longe da perfeição: “Os médicos não estavam a dar conta do recado, os hospitais de facto não têm muitas condições”.


 
Entre réplicas cada vez mais espaçadas, a “última foi de madrugada”, explica que o apoio governamental é escasso e que falta o essencial. Água “pouco existe” e encontrar comida só em alguns hostels, já que “está tudo praticamente fechado”.
 
"Da parte do Governo não vejo assim muita ajuda, as coisas permanecem paradas, não existe auxílio, existe sim uma certa atividade militar, existe algum suporte, mas acho que é muito pouco.” O governo do Nepal pede ajuda internacional desde o primeiro dia. De vários pontos chegaram já diversos apoios desde equipas de buscas e salvamento a mantimentos de primeira necessidade para a população.
 
"Tanto os hospitais públicos como os privados estão sobrecarregados e estão até a tratar os doentes ao ar livre", afirmou o embaixador nepalês na Índia à Reuters.
 
Héli Camarinha partiu para o Nepal com o intuito de por lá andar um mês: “Ia viajar, conhecer o país, estar em contacto com o povo, estar em contacto comigo mesmo”, contou à TVI24, garantindo que a experiência de vivenciar um terramoto de magnitude 7.8 não o demove: “Tenciono continuar por cá”.

 

Na página de Facebook, na mensagem que deixa a tranquilizar amigos e familiares, Héli vai mais longe e conta como entre o caos, encontrou uma experiência mais profunda.
 

“Os meus planos passam por permanecer pelo Nepal pelo menos por mais um mês, pois no meio do caos, encontrei as respostas que procurava. Hoje sou ainda mais 'rico' do que alguma vez já fui e por isso o meu obrigado”.