O Governo português pediu esta segunda-feira o rápido desenvolvimento de «esforços conjuntos da UE para uma resposta concertada» perante as mortes de imigrantes no Mediterrâneo, na sequência do naufrágio de uma embarcação junto à costa líbia.

Em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros afirma que «a reunião de emergência da UE, agendada para esta segunda-feira no Luxemburgo, vai ao encontro das posições do Governo português, que já vinha alertando, em Bruxelas, sobre a necessidade dos Ministros dos Negócios Estrangeiros e Administração Interna se reunirem para debater a crescente catástrofe humana no Mediterrâneo».

O Governo português acrescentou ter tomado conhecimento «com profunda consternação» do naufrágio de uma traineira com cerca de 700 imigrantes a bordo, na noite de sábado a 60 milhas da costa da Líbia.

Até agora, só foram encontrados 28 sobreviventes.

Presidente da AMI acusa comunidade internacional de «indiferença»

O presidente da AMI, Fernando Nobre, lamentou o naufrágio de mais uma embarcação no mar Mediterrâneo e acusou a comunidade internacional de mostrar «pouco interesse» em ajudar a resolver uma situação cuja tendência é agravar-se.

«Infelizmente, o que aconteceu já é uma tragédia recorrente e vai acontecer muitas mais vezes. A comunidade internacional tem sido impotente, eu até diria mais, não sem tem mostrado interessada em parar o caos e a tendência é agravar», disse à agência Lusa o presidente da Assistência Médica Internacional (AMI).


Em declarações à Lusa, Fernando Nobre lembrou que diariamente chegam a Lampedusa cerca de 1.500 refugiados vindos do Médio Oriente e de África.

«O que está a acontecer é apenas a ponta de um ‘iceberg’ e vai tomar proporções, eu diria bíblicas. Estes naufrágios vão repetir-se a menos que as forças navais ousem entrar nas águas europeias do Mediterrâneo», alertou o responsável.

Fernando Nobre salientou que estes imigrantes são uma «mina de ouro» para os traficantes.

«O que se passa agora é que os traficantes levam as barcaças até ao limite das águas internacionais, não entram nas águas da Europa e abandonam os imigrantes, deixando-os à deriva. Uma barcaça como esta que afundou no fim de semana rendeu a estes traficantes no mínimo entre um milhão e meio e dois milhões de euros. Isso são factos», sublinhou.


O presidente da AMI recordou que o desenvolvimento em África não está na ordem do dia dos países europeus, bastando ver a percentagem do PIB que cada país da Europa destina à ajuda internacional àquele continente.

«Lembro também que está lançado o caos na Síria, no Irão, no Afeganistão, no Iraque, e mais recentemente temos também problemas na fronteira da Ucrânia com a Rússia», disse.

No entender do presidente da AMI, a Europa olha para estas situações, marca reuniões extraordinárias, mas «nada acontece».

«Mais uma vez, nós na Europa olhamos para estas questões com indiferença. Depois, fala-se em cimeiras extraordinárias quando um barco afunda mas, repito, isto é só o início. Ainda vai ser muito, muito pior», concluiu.

Segundo dados da ONU, a confirmar-se a morte dos imigrantes desaparecidos no naufrágio de sábado, desde o início do ano terão morrido em águas do Mediterrâneo cerca de 1.600 pessoas, as quais se somam às mais de 3.500 que perderam a vida em 2014.