Arranca esta segunda-feira a semana europeia para o cancro da cabeça e do pescoço. É o sexto cancro mais comum em todo o mundo: mata três portugueses todos os dias. Todos os anos surgem cerca de três mil novos casos em Portugal. Nos últimos anos, 62 mil pessoas morreram em toda a Europa.

O cancro da cabeça e do pescoço afeta maioritariamente homens a partir dos 40 anos, mas começa já a atingir também os mais jovens e as mulheres. Mais de metade das pessoas diagnosticadas com a doença vai morrer no espaço de cinco anos. O consumo excessivo de tabaco e álcool são fatores de risco determinantes para o aparecimento desta doença, conforme explicou à TVI24, Miguel Vilares, cirurgião maxilo-facial e membro do Grupo de Estudos de Cancro de Cabeça e Pescoço.
 

“Atualmente tem-se vindo a observar uma maior prevalência em indivíduos mais novos, menos de 40 anos, devido fundamentalmente ao vírus HPV, Papiloma Vírus. Pensa-se que terá a ver com o aumento dos riscos em termos sexuais, em termos de comportamentos de risco próprios que aumentam essa prevalência do HPV”, disse o especialista.


Em entrevista ao “Diário da Manhã”, Miguel Vilares chamou a atenção para os “números assustadores” de casos de doença que só chegam ao conhecimento do médico num estado já muito avançado. E a culpa nem sempre é do doente.

“Isto tem a ver muitas vezes com a nossa dificuldade em aceitar, a nossa dificuldade em procurar os meios necessários, mas às vezes há dificuldades também em conectar a parte do médico de família com os centros responsáveis de integração em termos do Instituto Português de Oncologia (…). Existe muitas vezes também a diminuição da informação que não chega a determinadas pessoas e as pessoas deixam-se andar até que se chega a um ponto em que a cirurgia acaba por ser catastrófica”, alertou.

Para Miguel Vilares, a principal mensagem é o alerta e a deteção precoce dos sinais e sintomas. Até porque, detetado precocemente, acrescentou o cirurgião, o cancro tem uma percentagem de 80 a 90% de bom resultado, de taxa de sobrevivência.

“A valorização dos sinais pela pessoa é um facto é certo, mas as consultas de rotina em termos de médicos de família também têm que ser mais cuidadosas. Um doente não pode entrar numa consulta de rotina e sair dois ou três minutos depois. O exame clínico tem que ser um exame detalhado. Não é todos os doentes quando vão à consulta terão de ter um cancro. O objetivo da consulta é obviamente tratar e avaliar as situações porque o doente lá está”, defendeu.

 

“O doente pode queixar-se de uma dor na língua, pode ter uma lesão, uma úlcera, uma afta ou uma lesão que pode simular uma afta. Alterações da voz, uma rouquidão persistente, uma hemorragia também, alterações do olfato, um nódulo no pescoço, tudo isso pode alertar-nos para a presença do cancro da cabeça e pescoço. E isso implica que o doente se queixe e implica também que haja uma maior atenção do clínico para esse sinais e sintomas”, concluiu.