Cortes nos salários: médicos e enfermeiros ameaçam trabalhar menos

Com os cortes nos salários, as horas extraordinárias podem deixar de compensar no fim do mês. O caos nos hospitais vai aumentar

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   |   6 de Outubro de 2010 às 12:38
O Governo prepara-se para cortar os salários dos funcionários públicos que ganham mais de 1500 euros por mês em média 5% e o anúncio está a levantar uma onda de descontentamento nos hospitais.

Médicos e enfermeiros fazem contas e contas e chegam a uma conclusão: em alguns casos, pode não compensar fazer horas extraordinárias, porque um vencimento mais alto levará a um corte maior. Muitos ameaçam mesmo deixar de fazer noites, fins-de-semana e feriados.

Os sindicatos compreendem a insatisfação e ainda têm a esperança que os cortes se apliquem apenas aos vencimentos base e não a outros rendimentos. No entanto, o comunicado do Conselho de Ministros da última quarta-feira é claro: «Incidirá sobre o total de salários e todas as remunerações acessórias dos trabalhadores, independentemente da natureza do seu vínculo.»

Guadalupe Simões, do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), compreende a «tentativa de não fazerem tardes e noites», porque «o esforço não é compensado», pelo que o caos nas urgências «é um cenário que se coloca».

Com a não admissão de mais trabalhadores na Função Pública e os «serviços já de si carenciados», para o SEP, «só pode significar que o Estado pretende a manutenção dos serviços através das horas extraordinárias». Por isso, caso as ameaças se concretizem, o ministério «vai ter uma grande dificuldade em manter os serviços abertos».

Quanto ao facto de alguns enfermeiros já não estarem a receber as horas extraordinárias, Guadalupe Simões critica a «coacção» dos conselhos de administração dos hospitais. «O sentimento de injustiça vai aumentando e os enfermeiros pensam: "Ai ainda por cima vão cortar 5%? Então vamos trabalhar menos 5%"», afirmou ao tvi24.pt.

O SEP está a tentar agendar uma reunião urgente no ministério da Saúde para também esclarecer se está garantido o aumento dos profissionais que ganham menos de 1200 euros, a 1 de Janeiro de 2011, «como ficou prometido».

«Começa a ficar claro que a crise tão cedo não se vai resolver e não será de certeza com estas medidas. Daí o apelo à participação na greve geral marcada para 24 de Novembro. Vamos tentar mobilizar o máximo de enfermeiros», adiantou Guadalupe Simões.

Já no seio dos médicos há uma maior contenção, pelo menos de carácter oficial. «Os médicos ganham mal, mas também não são nenhuns coitadinhos, tendo em conta o quadro geral do país. Os médicos têm noção que ganham acima da média», disse ao tvi24.pt o bastonário Pedro Nunes.

A Ordem dos Médicos admite que os profissionais estão «incomodados» e até «zangados», porque «são sempre os mesmos» a «pagar a factura». «Não me admira que o número de horas extraordinárias venha a descer e isso preocupa-me. Poderá transbordar o copo», avisou.

Para o bastonário, o atendimento nos hospitais vai piorar: «Claro que vão ser maiores as falhas. Nalguns sítios poderão ser mesmo dramáticas.»



O tvi24.pt contactou o ministério da Saúde várias vezes para perceber o que vai ser feito para minimizar os efeitos da diminuição das horas extraordinárias, mas não obteve resposta em tempo útil.
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