Manuel Varela descobriu aos 28 anos a sua verdadeira vocação: ser manicure. Depois de ter trabalhado nas obras, vendido peixe e pintado barcos, entrou com «sucesso» numa profissão exclusiva das mulheres.

Veio cedo de Cabo Verde para Portugal, onde vive desde os cinco anos. Começou a trabalhar muito jovem na construção civil, aos 18 anos vendia peixe na praça, aos 22 pintava barcos na Lisnave e foi motorista. «Nos intervalos dos trabalhos, ia sempre para as obras. Era mais fácil», recordou à agência Lusa Manuel Varela, de 31 anos.

Fala com orgulho de todos estes trabalhos, mas o prazer que sente em deixar umas «mãos bonitas» leva Manuel Varela a eleger esta como a profissão da sua vida.

O desafio foi-lhe lançado há três anos pela mulher, que é esteticista. No início, achou a proposta «disparatada», por considerar que «não era um trabalho adequado para homens». Depois de reflectir, aceitou tirar o curso e acabou por gostar ao ver o resultado do seu trabalho: unhas bem tratadas e arranjadas.

Manuel Varela era o único homem a frequentar o curso de manicure, uma situação que gerava algum gozo das companheiras da formação. «No início do curso, achavam estranho estar lá um homem, mas depois começaram a achar normal e, apesar de gozarem, ajudavam bastante», contou, garantindo que nunca se sentiu incomodado.

Apesar do orgulho que tem na profissão, diz que nunca fala dela aos amigos e quando os desafia a adivinhar o trabalho que desempenha eles nunca acertam.

Sobre as clientes, Manuel disse que «umas acham normal e outras fazem perguntas e dizem que é a primeira vez que um homem lhes arranja as unhas». Há ainda quem se desloque ao salão por «curiosidade» e para constatar se as mãos ficam mesmo bem tratadas. Mas uma coisa é certa: «nunca ninguém recusou arranjar as unhas pelo facto de ser um homem a fazê-lo».

Educador de infância sem «instinto maternal»

Ser homem numa profissão ocupada maioritariamente por mulheres nem sempre é fácil. Há 15 anos que o educador de infância Henrique Santos tenta «provar e comprovar» as suas «opções pedagógicas» perante o «instinto maternal» das companheiras da profissão.

Henrique Santos, 37 anos, foi o segundo homem a tirar o curso na Escola Superior de Educação de Lisboa como educador de infância. Quinze anos depois ainda são poucos os homens que concorrem a estes cursos. Dados do Ministério da Educação indicam que, em 2007, num universo de 18.352 educadores, 17.836 eram mulheres e 516 homens, o que representa uma taxa de feminidade de 97,2 por cento.

«Atravessei dificuldades relacionadas com o facto de sermos poucos na altura», confessou à Lusa o educador de infância, que está há dois anos num jardim-de-infância da rede pública, na Póvoa da Galega, em Mafra.

Contou que no início da formação havia a ideia de que pelo facto de ser homem era «favorecido», mas Henrique sempre sentiu o «oposto» e disse que pagou por não ter «instinto maternal».

Desde que completou o curso, Henrique Santos tem exercido a actividade docente sempre ligado ao ensino pré-escolar em instituições particulares de solidariedade social (IPSS) e na rede pública. A tarefa nem sempre foi fácil. «Tive sempre de provar e comprovar que as minhas opções pedagógicas tinham alguma razão de ser e que eram coesas, concretas e justificadas», sublinhou.

Henrique Santos exemplificou com uma situação muito simples e que às vezes divide, em termos pedagógicos, educadores e educadoras. «As educadoras, se vêem uma criança com os atacadores desapertados, o que fazem em primeira análise é baixarem-se e apertar o sapato. Eu normalmente o que faço é convencer aquela criança a ser ela a apertar o sapato», contou.

No entanto, o docente tem sempre de explicar os benefícios deste acto para as crianças: «em termos pedagógicos, posso comprovar que ensinar a criança a apertar o sapato tem um conjunto de implicações em termos de autonomia e valorização da formação pessoal e social do indivíduo».