Um dos acusados do homicídio qualificado de um casal de ourives da Lousã, distrito de Coimbra, em 2014, disse esta segunda-feira, em tribunal, estar arrependido, enquanto o outro arguido negou participação direta no crime.

Os dois acusados de homicídio qualificado de um casal de ourives da Lousã, distrito de Coimbra, na madrugada de 25 de junho de 2014, começaram hoje a ser julgados, no Tribunal da Lousã, perante uma sala de audiências cheia.

Um mecânico de 33 anos, Pedro, e um desempregado de 23 anos, Francisco, ambos de Penacova, estão acusados pelo Ministério Público (MP) de dois crimes de homicídio qualificado, um crime de furto qualificado, um de roubo agravado, dois crimes de detenção de arma proibida e dois crimes de branqueamento.

O mecânico foi o primeiro a falar no início do julgamento, confirmando a versão dos factos da acusação do Ministério Público.

Segundo o MP, os dois arguidos ter-se-ão deslocado à casa de um ourives em Foz de Arouce, Lousã, para roubar a carrinha onde aquele transportava o ouro.

Pedro terá disparado na nuca do ourives, tendo depois os dois acusados recorrido a vários golpes de moca e a tentativas de asfixia de modo a matarem tanto aquele profissional como a sua mulher.

Os dois arguidos, verificando que as vítimas já estavam mortas, apoderaram-se de ouro e dinheiro que se encontrava numa das divisões da casa e ausentaram-se do local na carrinha com que o ourives fazia feiras, refere o MP, no despacho da acusação.

De acordo com Pedro, "a ideia nunca foi fazer mal a ninguém".

O juiz que preside ao coletivo, João Ferreira, questionou porque é que os dois arguidos "fizeram aquela barbaridade", referindo que "podiam ter levado uma corda ou uma fita" para imobilizar as vítimas, não sendo necessário matar, visto que, por usarem um passa montanhas (gorro que cobre a cabeça), "ninguém" os reconheceria.

"Porque é que precisaram de matar?", perguntou João Ferreira.

Instigado pelo seu advogado de defesa, Pedro reconheceu que o que aconteceu "é uma tragédia" e pediu desculpas aos familiares das vítimas.

"Nada disto era para acontecer. Era um simples assalto", afirmou o arguido, que disse estar "arrependido" - declaração também incitada pela sua defesa.

Por outro lado, Francisco recusou envolvimento direto na morte do casal de 56 e 55 anos, referindo ainda que a hipótese de matar teria sido avançada por Pedro.

"Nunca pensei que ele fosse capaz de disparar", comentou, alegando que nesse momento não terá estado dentro da garagem onde ocorreram os homicídios, por ter entrado "em pânico".

Francisco disse na primeira sessão do julgamento que, durante os acontecimentos, terá apenas agarrado na mulher, enquanto Pedro estava a agredir o ourives.

"Você sabe que ele está a matar o ourives. Ouve as pancadas e está ali quietinho e a agarrar na senhora. Sem a sua participação nenhum deles morria daquela forma, pelo menos a senhora conseguia fugir", sublinhou o juiz, apontando ainda para a "insensibilidade e frieza absoluta" de Francisco, que, segundo a sua versão dos factos, depois de as vítimas estarem mortas, foi inspecionar o escritório onde encontraram 14 mil euros em dinheiro.

Para além dos dois suspeitos do homicídio, estão também constituídos como arguidos a namorada de um dos suspeitos, feirante de profissão, por roubo agravado e dois crimes de branqueamento, uma estudante de 24 anos de Penacova por roubo agravado e um retalhista de ourivesaria de Coimbra por três crimes de recetação.

As duas arguidas mostraram vontade em falar em tribunal. O retalhista não esteve presente na primeira sessão de julgamento, por indisposição.