O poeta Manuel Alegre criticou hoje aquilo que definiu como uma “ditadura do mau gosto” alimentada pela comunicação social, que prejudica a literatura nacional e fomenta o desenvolvimento de uma “subliteratura”.

Durante uma intervenção, na primeira mesa do encontro de escritores de expressão ibérica Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, Manuel Alegre considerou que “a palavra do Homem está pervertida, pela tecnocracia, pelos interesses, pelo império do dinheiro e também pela subliteratura”.

“Entra-se numa livraria e quase se desanima. Há tempos estava numa livraria a assistir à apresentação de um livro, estava o Gastão Cruz ao meu lado, olhámos para as prateleiras e dissemos: ‘Para que é que a gente anda a publicar livros?’ Entra-se numa livraria e desanima-se ou quase”, afirmou o escritor.

Num painel com Hélia Correia e o brasileiro Antônio Torres, moderado por José Carlos Vasconcelos, Manuel Alegre declarou que a “ditadura do mau gosto” é “fomentada pelas televisões, por muita imprensa, por muita crítica muito sectária, e também pelas empresas, algumas que editam livros e sobretudo por algumas que os vendem”.

“Há uma ditadura do mau gosto e essa ditadura é que favorece a subliteratura e prejudica gravemente a nossa literatura. É muito difícil hoje encontrarmos nalgumas livrarias alguns dos nossos clássicos ou alguns dos nossos poetas até mais recentes. Isto é um problema grave”, criticou o autor de “Praça da Canção”.

Manuel Alegre lembrou que houve tempos em que, na televisão, falavam Vitorino Nemésio, Natália Correia ou David Mourão-Ferreira, mas que hoje a situação é distinta: “Hoje o Vitorino Nemésio da televisão é o senhor Rui Santos, que fala uma hora e meia ou duas ou três de futebol por semana. Temos o Jogo Jogado e parece que os portugueses gostam mais do jogo falado do que do jogo jogado”.

O tema da “literatura de plástico” ocupou grande parte do painel durante a fase de perguntas e respostas, levando Hélia Correia a dividir os textos em dois: uma coisa é literatura, outra são as coisas que se escrevem e que são “alinhamento de palavras”.

“O papel da escola é de suprema importância, mas é preciso não transformar os textos literários em carne do talho, partida aos bocadinhos e examinada à lupa”, disse a vencedora do prémio Camões 2015.